quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Enigma cósmico

Dizem os doutos em ciências físicas e astronômicas, que o Universo teria se formado há 17, 4 bilhões de anos. Onde será que esses "malucos" arranjam subsídios para tal estimativa? Digamos que eles podem até ter razão. Mas, o que inquietia mesmo, é o vislumbre do que havia antes. Digo da matriz originária de tão formidável espectro. E mais, fico entalado, minha cabeça da um nó, só de pensar na pequenez humana, que tanto se esforça, ora conscientemente, para destruir um fragmento ajustado, perceptível à nossa vã condição ( o planeta Terra), desse mistério perturbador. É revoltante imaginar que essa obra fantástica de mais de 4 bilhões de anos, poderá deixar de existir em pouco mais de um século (desde o advento da indústria). Você duvida disso? A humanidade não merece Gaia. Somos uns gaiatos cósmicos.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O malandro que virou jegue (final)

(...) Amargou um longo tempo detido, lavando banheiros e comendo o pão-que-o-diabo-amassou. Liberto, sem dinheiro nem documentos, sofrendo de uma bronquite crônica, não era nem sombra do moleque brincalhão que alegrava os conterrâneos. Capengando nitidamente, vagou sem rumo pelas ruas, desnorteado, faminto, mendigando um cigarro e um prato de comida, dormindo em bancos de jardins, curtindo a maior frieza. Um farrapo humano.
        Certa manhã, passava em frente a uma construção quando foi atraido pela verborragia dos operários, nordestinos em processo de aculturação mas ainda com vestígios de fala sertaneja. Deu meia-volta, entrou timidamente no pátio repleto de materiais e serventes, sendo logo olhado com desconfiança, tal o estado lastimoso. Apareceu o mestre-de-obras, um cearense desbotado, que indagou de sua presença. Olhos no chão, falou debilmente:
      - Ando à procura de um trabalho...
        Rá! Rá! Rá! Rá!, explodiu no pátio, a gargalhada do operariado expectante. Aonde um molambo daquele ia arranjar força pra mexer uma masseira ou subir escadas com 50 quilos nas costas?
      - Vai comerrr farinha, paraiba! - dizia um, puxando nos "erres".
      - Donde tu veio não tinha comida não, baiano! - falava outro.
      - Cadê a peixeira, perrrnambuco? - gozava aqueloutro.
      Eram todos sertanejos, alguns com menos de ano na cidade, mas já devidamente integrados ao meio, e, fato contraditório, renegando a região de origem, discriminando os novatos, como costumavam fazer os paulistanos.
      - O que é que tu sabe fazerrrr, Ceará? - perguntou o mestre-de-obras.
      Titubeio, vergonha, ombros arriados, pé ciscando o chão, fala chocha:
      - Nunca trabalhei em obra, mas posso aprender...  
      - Mas você nunca mexeu com nada, meu? - tornou o outro.
      - Bem, eu fui camelô uns seis meses... Também canto como passarinho e rincho como jegue...
      Rá! Rá! Rá! Rá!, a mão-de-obra, deliciada com a situação, inclusive o mestre, que falou:
      - Então arremede aí um galo-de-campina pra mim ver!
      O malandro ergueu os olhos, mexeu nervosamente os lábios, e debulhou, por um tempo que pareceu interminável, melodiosa ornitofonia, embutindo cantos de vários pássaros a curtos interregnos. A mão-de-obra mal paga e o mestre  sem capacete, ouviram-no sem interromper, pensativos e sensibilizados. De repente, foram transportados para seus rincões: uns lembraram dos sabiás-brancos no pé-de-mandacaru dos fundos da casa; outros, da nuvem de pássaros-pretos nos liculizeiros da malhada; outros mais, dos coleirinhas, dos papa-capins e bigodes que politonavam nas quixabeiras das rocinhas paternas, imagens caras que queriam sufocar, mas não podiam.
      - E o jegue?... Não vai arremedar não?... - o mestre, os olhos prenhes de lágrimas.
      Pela reação da platéia, muda e respeitosa, deduziu que agradava. E nunca em sua vida zurrou com tanta perfeição.

     "OOOOONNNNN!...OOOOONNNN!...IISS-OOONNN!...IISSOOONNN!...IISS-OOONNN!...IICS!...IICS!...IICS!...BURRR!...Burr!...burr!..."

     A reação foi um misto de choro e galhofa. Cercado, recebendo tapinhas amistosos nas costas, ouviu da boca do mestre, que se recompusera:
     - Vou lhe arranjarrr uma colocação. Mas não pense que que ninguém aqui vai lhe passarrr a mão na cabeça. Aqui é trabalho pra cabra macho!

      Ficou engajado na construção de mais um dos arranha-céus que pareciam brotar espontaneamente da cidade de São Paulo. Como soubera de antemão, o serviço era um osso duro de roer. Masseiras coguladas de brita e cimento, blocos descomunais, vigas de ferro e aço pesando mais do que a serpente, tudo isso ele tinha de manejar, com outros serventes, para suprir os pedreiros que cada vez mais distanciavam-se do chão, com a subida vertiginosa do prédio de apartamentos.
      Ganhou o apelido de Jegue da Natuba, pois, volta e meia, para satisfazer pedidos, zurrava que nem um condenado. Até gostava do dichote. Era uma forma de se sentir destacado, importante, alvo de cortesias e brincadeiras.
      - Sobe uma massa aí, jegue magro!
      - Olha o tijolo com rincho, jegue ronceiro!
      - Salta um vergalhão e um rincho caprichado, jegue baiano!
     
      "OOOONNNN!...IISS-OONN!...IISS-OONN!...IISS-OONN!...ICS!...ICS!...ICS!...BURR!...Bur!...Bur!..."

       Rá! Rá! Rá! Rá!, estourava o edifício em risos desbragados. E ele ria junto, mesmo debaixo de um peso maior do que o seu, subindo degraus em caracóis. Até o dia em que viu morrer o primeiro colega. Um sergipano da cidade de Tobias Barreto, no estado sergipe, ali pelas vizinhanças de seu torrão natal, um baixote caladão que costumava ficar com ele na hora do grude requentado, e a quem fazia o obséquio de ler as cartas mal-ajambradas provindas daqueles pagos, pisara em falso e despencara lá do último andar, caindo como um coco seco e manchando o pátio de sangue, os ouvidos estourados. Uma ambulância apareceu apitando, levou o corpo recoberto com papelão, velado sem velas e com choros apressados.
       - Vamos lá, pessoal! Lavem esse chão e bola pra frente! São Paulo não pode parar! - do engenheiro responsável pela construção.
       Depois despencou outro e mais outro e mais outros, numa sequência macabra. E que em breve viraria rotina, com a maioria dos tristes-sinas fazendo piadas da sua indelével sensibilidade, apesar da crueza do dia-a-dia, apesar de mais um corpo estraçalhado levando embora pelos impassíveis homens de branco dos rabecões sinistros.
       - O jegue hoje tá muzumbudo! Lasque um rrrincho aí, pastorrr das besta!!!
       Quando chegaria a sua vez? Foi sendo tomado por um pavor tremendo, de uma vontade louca de voar, de uma necessidade premente de tornar à sua querência, a evocá-la dos sonos estremecidos. Tentava economizar para a passagem de volta, mas... embalde, o ganho irrisório não contribuía. Ficava todo nos balcões sarcásticos das padarias galegas e num cortiço imundo do Capão Redondo. E foi percebendo que a terra-mãe, estéril e agreste, às vezes traiçoeira mas nunca desamada, agora era um sonho quase intangível. E foi deduzindo que ele, para um jegue, só faltava mesmo a cangalha e um par de caçuás. E zurrava de desespero, burro de carga a pisar com cuidado nos degraus da morte:

      "OOOOOONNNNN!... OOOOONNNNNN!...IICCSS-OOONNN!...IICCSS-OOONNN!...ICS-OONN!...IICS!...ICS!...BURR!...Burr!...burr!..."

                          "Essa história, extraida do livro de contos TERRA E SOL, é uma história de ficção baseada em fatos reais".


       Nota do autor: o protagonista só voltou à Natuba quando da publicação desse livro, em l997, do qual tomou ciência através de parentes. Chegou dirigindo um carro em bom estado, com a mesma picardia doutrora, dizendo-se investigador de polícia, quando na verdade comprovou-se que era padeiro, e ameaçando o autor de levá-lo às barras da justiça, pelo protagonismo, se o mesmo não "molhasse a sua mão". E as galinhas que eu carreguei de graça pra ele, quando era menino (de parceria com Tonho de Cota, seu ajudante (mal) assalariado, não conta não?).

sábado, 14 de novembro de 2009

O malandro que virou jegue (cont.)

... Foi morar em São Miguel Paulista, periferia, reduto dos nordestinos migrantes. De começo tudo correu muito bem. Adquiriu uma barraca de camelô e passou a frequentar a Praça da Sé, paraiso da camelotagem e da malandragem. Negociante sagaz, em pouco tempo dobrou o capital investido. A continuar daquela forma, dentro de um ano voltava casado do sertão. Ia indo muito bem, comercializando suas bugiarias com um tino e uma eloquência que enchiam de inveja os vizinhos do ramo. De posse de um megafone, rasgava a goela na frente da banca:
     - Olha o óleo do peixe-elétrico, excelente diurético contra os males da uretra, prisão de ventre, dores lombares e eticetra!... Espinhela caída, rinhada defeituosa, colesterol na barriga? A limonada Milagrosa é o arrelique da sua vida!... Seu marido tá sofrendo de nevralgia, descachimbado, minha senhora, leve pra ele o elixir  do Jeremias, o motor de arranque mais porreta fabricado na Bahia!... Chega meu povão, aproveite a promoção: leve dois pague dois e ganhe um aperto de mão!
     E lascava o bico a arremedar a passarada do sertão, atraindo compradores e curiosos, e açulando ainda mais o olho grande da concorrência. Aí a coisa desandou. Para malandro, malandro e meio. Um dia foi abordado por dois vigaristas disfarçados de fiscais do rapa, trajados a rigor, que foram logo lhe pedindo os documentos. Inadivertidamente entregou-lhes a capanga recheada. Um finge conferir a documentação, escorrega para trás, o outro vai tomando a frente, "fiscalizando" a mercadoria "o que é que você tem aí, meu?", e de repente o primeiro abre no mundo a cem por hora com todas as suas economias e uma certidão de batismo, único documento de que era portador.
     - Ôxe! Ôxe!, que brincadeira da peste é essa? - alarma-se, manjando o embuste.
     E joga o corpo pra diante, desembestando atrás do vagabundo. Logo na saida encontra o pé do outro vigarista na frente e cai de cara numa prateleira de tomates. Em meio às gargalhadas dos concorrentes, que haviam contratado o golpe, levanta-se de pronto, saca de um canivete, e parte como um louco atrás dos ladrões. A perseguição atravessa o camelódromo risonho e continua pelas ruas movimentadas. Ao dobrar de uma esquina perde os bandidos de vista mas continua a correr, canivete empunhado, ansiedade estampada na cara aflita, chamando a atenção dos transeuntes e da polícia, sem notar que os gatunos haviam ficado para trás, escondidos sob uma marquise. Adiante uma viatura policial encosta no meio-fio. Então deu-se o inesperado e ele passou de perseguidor a perseguido. Só tomou ciência quando ouviu a gritaria às suas costas:
      - Pega ladrão! Pega ladrão!
      - ?
      Sem deixar de correr olhou por cima do ombro e viu os dois bandidos na sua traseira apontando-o com o dedo e gritando para os policiais de prontidão no passeio público:
      - Pega! Pega! Segura esse meliante aí, parceiros!
      Quando deu por si, estava agarrado pelo colarinho. Esperneou em vão.
      - Não, não!, eu é que fui roubado por estes vagabundos, seu guarda!
      Difícil provar o argumento. Canivete empunhado, a roupa suja, ares de louco correndo na frente, contra as fardas impecáveis dos "fiscais" da Prefeitura e a desenvoltura desses:
      - O vagabundo estava assaltando uma loja, colega. - falou um.
      Canivete tomado, mãos na cabeça, pernas abertas, revista minuciosa de encontro à viatura.
      - Não, não!, foi eles que me roubaram a capanga, seu polícia!
      - O safado deve ter se descartado do produto do roubo durante a perseguição, colega - falou o outro "fiscal".
      E o policial autoritário, senhor da razão e dos destinos:
      - Cadê os documentos, paraiba?
      - Não, não!, eu sou baiano! O meu batistério tava na capanga que eles me roubaram!
      Em contrapartida, mil e uma carteiras, atestados, recibos, exibidos expontaneamente pelos vigaristas. Estava enrolado no xale-da-doida. Configurados crime e culpa, veio o castigo:
      - Borracha e camburão no meliante, soldado!
      Ordenou o comandante da patrulha a um sobordinado parrudo com cara de fera. Aí os "fiscais" saltaram à frente:
      - Fazemos questão, tenente. O salafrário nos deu a maior canseira. Permite?
      Permissão obtida, cairam de cassetetes e pontapés no lombo do alucinado e desditoso Jerson, ali mesmo na calçada larga apinhada de curiosos.
      (cont.)  
     

O malandro que virou jegue (cont)

(...)                                             "Adeus meu pedaço de chão
                                                  " Adeus minha terra morena
                                                   Quem fica não tem opção
                                                   Quer avoar e não tem pena
                                                   Quer comer e não tem pão.

                                                   Por isso vou mimbora
                                                   Meus sonhos vou perseguir
                                                   Quem espera não faz a hora
                                                   Nem alcança o porvir
                                                   Prefiro chorar lá forao cons
                                                   Do que rir sem graça aqui."

        Com esses dois versos, despediu-se Jerson, que também era poeta e ninguém sabia, de seu torrão natal. E subiu no pau-de-arara lotado, levando na matulagem, além da mala-de-couro, de um farnel sortido e de uma jaca mole, a benção dos pais e um adeus choroso da noiva Maria de Belo Barão, devidamente aliançada, uma morena beata, prendada e cadeiruda.
        O caminhão começou a gemer, estralando a carroçaria, e avançou lentamente pelas ruas encascalhadas, disposto a enfrentar vinte dias de dificuldades. O dia amanhecera por inteiro, o ar parado, seco, nenhuma gotinha de orvalho nas árvores mirradas, meio ano sem uma chuva. O inverno anterior mal-mal criara uns carocinhos chochos de feijão. Milho? Nem pra remédio! Abóbora, batata, aipim?, semente jogada fora. A rigor, apenas os umbuzeiros e os juazeiros viçavam, contrastando com a terra vermelha e a arbustada ressequida. O céu era de um azul diáfano, nuvem nenhuma. A leste o sol, medonha bola de fogo, subira já mais de palmo no horizonte. Despertava a bicharada morta-viva do jejum noturno, sepultava no chão rachado a esperança dos homens. O ciclo infausto varava os séculos, tangia as décadas, empurrava os anos, açoitava os meses, enchia os dias. O pau-de-arara solitário engolia as léguas na direção do sul. levava a bordo dezenas de sonhos que se perderiam entre os arranha-céus frios e indiferentes da grande São Paulo. Sonhos natimortos.

    





O malandro que virou jegue (cont)

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O malandro que virou jegue (cont)

(...) Protegido pela escuridão da madrugada, um vulto furtivo esgueirava-se pelas esquinas, trazendo a tiracolo pesado volume, posto que vinha menso e trocava-o de mão de vez em quando. À altura do coreto, o malandro Jerson desgarrou-se das paredes, cruzou solerte a pista de cascalho, pisou o jardim, arriou a lata de querosene cheia de estrumes, desfolhou umas quatro árvores, espatifou um bocado de grama, entornou parte do conteúdo da lata, ergueu o corpo, olhou pros lados, estufou o peito, e lascou um zurro sensacional, perfeito ao estremo:

      "OOOOONNNN!...IS-OONN!...IS-OONN...IS-OONN!...IISS!...IISS!...IISS!..."

       Depois passou a mão na lata, e, lépido, rindo em surdina, atravessou a praça, postando-se na esquina do Beco do Quinze, donde assuntou o efeito da molecagem. Alvoroço, pisa-pisa, xíngos terríssonos, frases irosas no ar:
       - Óia lá, Tonho, é aquele cão de novo! Avia, vamos abufelar esse surunco! - bradava o violeiro.
       - Hoje num posso, seu Jerome. Tô macumbado... - falou o homenzinho, a voz transida de  medo.
       Não resistira a uns charutos, temerosa mas imperativamente auferidos de um despacho naquela noite, e, carregado, tremelicava a um canto. O violeiro desconjurou-o da sorte e desceu os degraus do coreto bufando, partindo célere, cabresto na mão, em direção ao local donde brotara o paracé. À essa altura, o "jegue" atuava em outra área, zurrando, pisoteando canteiros, avariando mudas, ferindo os ouvidos das casas adormecidas.
      E enquanto durou o suprimento de esterco fedorento do jumento Bacamarte, de sua propriedade, famanaz touro-de-bestas que anteriormente escandalizava dia e noite a nata da soçaite e deleitava a ignara plebe da Natuba, atropelando jegas, burras, éguas e até vacas com seu voraz apetite sexual, antes liberto por aí e agora dividindo humilhante fundo de quintal com porcas e galinhas goguentas, por força de um decreto-lei incôngruo, o malandro Jerson levou às raias da loucura o iracundo violeiro.
      E aquilo se repetiria noite a noite, semana a semana, causando a demissão dos vigias, a exoneração do secretário boa-vida, uma missa de esconjuro no coreto, o gáudio da oposição política, medo aos superticiosos, que eram muitos e ameaçavam abandonar a cidade, e levando o furente prefeito a instituir um prêmio em dinheiro vivo para quem lhe trouxesse a cabeça do famigerado asno.

       Estavam lá, afixados nos postes de madeira, para quem soubesse ler ou a quem interessar pudesse, indignando o sóbrio e acadêmico Cardoso Pena-Grossa, e deliciando o anarquista e livre-pensador Esmeraldo Gordurinha, a inteligentísia da Natuba:

        "PAGA-ÇE, EM MUEDA CORRENTI DO PAIZ,
        A QUÃTIA DE 500 MIU REIZ, PARA QUEM
        CAPITURÁ, VIVO OU MORTO, A PESSOA
        DO JEGUI ENCANTADO. TRATÁ DIRETAMENTI
        COM O CHEFI DO EZECUTIVO.
        Natuba, 13 de maio di l958."

        Desconhecendo que a troca da moeda para o cruzeiro se dera meio século atrás, o secretário namorador, readmitido mediante eficaz e concorrido lobby feminino, redigiu e colou na posteação dezenas de cópias do extravagante cartaz. Meio conto de réis! Uma fortuna possuída apenas pelos políticos e fazendeiros do lugar. Ninguém mais dormiu naquela cidade, inclusive os superticiosos, que mandaram o medo pra cucúia. Homens, meninos, e até mulheres, espingardas e cabrestos a tiracolo, esgaravatavam os quatro cantos da praça até a aurora, fazendo mais estragos no jardim do que o jegue fantasma, que continuava com as suas diabruras.
        Misturado ao povo, o malandro Jerson a princípio achara a situação hilariante, mas logo veio-lhe o estalo: meio conto de réis dava e sobrava para uma passagem no pau-de-arara de Zé Lopes. Mas ainda achou pouco. Quem sabe o prefeito não aumentava a recompensa e lhe permitiria botar uma banca de miudezas lá nas ruas maravilhosas de São Paulo? E caprichou na dilapidação. Apurou o zurro, arrancou plantas a tapa, esbagaçou grama japonesa, furou tonéis, cagou na entrada da Igreja, mijou no batente da Casa Paroquial, derrubou a porta da prefeitura com um coice, quebrou metade dos bancos do jardim, na esperança de ver crescer o valor da recompensa estipulado nos cartazes. E não deu outra. Uma semana depois, a cifra atingia a extraordinária quantia de "HUN  COMTO  DE  REIZ". Aí deu pra ele.
        Uma manhã encabrestou o jumento Bacamarte e na maior cara-de-pau, foi reclamar o prêmio na prefeitura, dando o ouvido a tapa se daquele dia em diante "ninguém mais assuntar um rincho de jegue nesse comércio"!
         - Pode ficar sossegado, viu dotô Juquinha! A culpa é toda desse pai-dégua escroto! Quer um conselho? Mande arrancar logo os quibas deste peste sonso! - falava o malandro, metendo o chute no fumeiro do jumento.
          O fato é que cessaram as incursões fatasmagóricas. E apesar da desconfiança do político, de seus assessores, e do povo todo do lugar, que sabia ser o malandro capaz de qualquer ação para extrair lucros, este embolsou a recompensa e preparou-se para a longa viagem. A viagem de seus sonhos.
           

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O malandro que virou jegue (cont.)

(...) A cidade iniciava seus primeiros movimentos. Aos poucos as pessoas iam aparecendo, algumas ainda bocejando, em trajos de dormir. Outras, mais ativas, já cumpriam tarefas. E as ruas se enchiam de leiteiros, entregadores de pão, escolares, mulheres empunhando vassouras, verborragicamente varrendo calçadas, lavadeiras com trouxas nas cabeças descendo para os riachos, homens dirigindo-se para suas roças, alguns abrindo vendas, dando prosas, ou simplesmente passeando a manhã cheia de sol. Tonho Baga cochilava de cabresto na mão, recostado num banco do jardim. O malandro achegou-se sorridente e sentou ao lado, puxando conversa:
      - Parece que perdeu a noite, Tonhinho? - sacudiu o homenzinho pelo ombro.
      O vigia ergueu a cara mal-dormida e abriu um olho, levando a mão à frente para livrar-se da claridade molesta do sol. Resmungou sem muita vontade:
      - Tô drumindo nada... É só uma páia...
      - Quer um cigarrinho?
      - Num é mal não...
      E estendeu a mão para receber um astória, acendendo-o com o fósforo que tambem lhe era ofertado. Deu duas tragadas fortes, animando o semblante caido.
      - O que foi que houve com Bugaju que tá ali enfezado? - futucou o malandro.
      O vigia abriu bem os olhos e esboçou um ar de contrariedade.
      - Home, tu num sabe de nada, Jé. Um jumento encapetado quase dóida nóis essa noite. Inté seu Jerome quebrou a viola de raiva.
      - Ah! Ah! Ah! Ah!
      - Num ria não qui o causo é sério. O disgramado estragou um bocado de pranta. Num sei o qui vai ser da gente quando seu Juquinha der com o dano. Óie quanto capim o bexiguento arrancô! - e apontou para uma área considerável de grama revolvida.
      - Ah! Ah! Ah! Ah! Até logo, Tonhinho! Eu vou ali no bilhar, fazer uma fezinha. Tome, fique aí com mais um cigarrinho. - passou-lhe outro cigarro e se foi rindo alto.
      Os aguadeiros iam e vinham, azafamados, enchendo dágua os tonéis distribuídos estratégicamente ao longo do jardim retangular, regado a baldes e panelas por um verdadeiro batalhão de funcionários sob o comando de Dudu Pedreiro, que se desdobrava para recuperar mudas de árvores pisoteadas e reconstituir tufos de grama.

       O prefeito Juca Ferreira, de chapéu de palhinha, gravata borboleta e terno impecavelmente branco de diagonal, entrou em seu gabinete cuspindo fogo e arrotando brasa. Verificara pessoalmente o estrago causado pelo estranho asno que subia degraus e nunca se deixava apanhar, e que os vigias, para fugirem ao uma possivel represália, alardeavam se tratar de um jegue encantado.
       - Dupla de energúmenos! Não servem para nada! Agora me saem com essa história de visagem! O diabo que os carregue pros infernos!
       Sentou-se à mesona, abriu um gavetão com tranca de pau, mergulhou a mão nervosa e voltou com uma garrafa de conhaque macieira, seu preferido, bebendo um generoso trago pelo gargalo. Devolveu a bebida ao local de origem, trancou a gaveta, e chamou um secretário:
       - Adamastor!
       O grito impaciente ecoou pelos corredores desertos da prefeitura.
       - Adamastor!
       Tornou o homem, os olhos vermelhos chispando. "Por aonde andará este mandrião"? Empregara o funcionário, parente remediado, namorador e boêmio, apenas por insistência das mulheres da família, que eram muitas e influentes, mas até já se arrependera. Sem demonstrar nenhuma pressa, um galalau bem-apessoado, mal saido da adolescência, penetrou no gabinete sem se anunciar.
       - Pronto, seu Juquinha, estou à vossa disposição... - falou, emprestando um tom humilde à voz capciosa.
       O prefeito enxugava a calva suada com um lenço e o mirou furibundo.
       - Adamastor eu vou lhe dar uma ordem e espero que essa seja rigorosamente cumprida! A partir de agora você fica diretamente responsável pela administração do jardim! Ponha mais aguadeiros, contrate mais gente para regar as plantas, prenda jegues, prenda também os donos se necessário, faça o diabo! Mas eu quero sucesso absoluto nessa empreitada! Compreendeu bem a minha ordem?!
       A par do ocorrido na noite anterior, como quase toda cidade, o secretário não pode reprimir o sarcasmo.
       - Bugaju mais Tonho Baga andam espalhando por aí que foi um jumento encantado, seu Juquinha...
       - E essa láia presta pra nada? São dois paus-de-bosta! Agora vá, vá cuidar de suas obrigações! - espantou o outro com um gesto nervoso.
       O secretário engoliu o riso e girou nos calcanhares, dirigindo-se para a saida. Antes de vará-la, porém, ainda ouviu:
       - Mesmo com a porta encostada, da próxima vez não esqueça de se anunciar! Ouviu bem?
       - Pode deixar, seu Juquinha. Não me esquecerei...
       Fechou a porta atrás de si e deu uma vigorosa banana na direção do político, que voltara às suas lucubrações. Aquele jardim era uma questão de honra, quer dizer, de votos. Era vital que estivesse a contento até o final do ano, quando serviria de palco para a festa da padroeira da cidade, Nossa Senhora da Conceição, época em que o lugar era invadido por romeiros do interior do município, pela população local e pelo povo das cidades circunvizinhas. O padre Galvão, promotor das santas-missões, naquela manhã lhe cobrara medidas mais enérgicas quanto à execução do valioso projeto. A já famosa dobradinha igreja-obras "faraônicas" nunca negava fogo.