sábado, 13 de julho de 2019


TERRAS DO BOM JUÁ
                                                                      
                                                                          José Erenilson da Silva

O rojão macio do animal quase me ninava. Dava uma leseira, um gosto de balanço de rede e eu me agarrava com força na cintura do meu avô, que conduzia a montaria com mão firme. Na dianteira seguiam minha mãe e uma tia, montadas de sela-de- banda. Íamos todos para o Juá, a fazenda do meu avô, herdada do pai dele. Para mim, aquilo era um acontecimento maravilhoso.
Atravessamos o rio na Passagem das Pedrinhas. Tive medo de cair naquela correnteza e morrer afogada. Tirei a vista das águas, atraída pelo voo de um martim-pescador. O pássaro de duas cores, do bico grande, subia, subia, pairava no ar por alguns segundos, olhando para baixo e batendo sem cessar suas possantes asas, marcava um ponto no meio do rio e se soltava de lá de cima, veloz como uma flecha. Tchibum!, mergulhava nas águas esverdeadas e voltava com uma piaba no bico, indo pousar no galho mais alto de uma árvore próxima. E lá se banqueteava. Enquanto nos afastávamos lentamente da margem pedregulhenta, acompanhava fascinada a ave repetir a cena por mais uma, duas vezes.
Com um sorriso cativante no rosto amorenado, minha avó nos esperava no alpendre do casarão de cor indefinida pela ação do tempo. Baixinha, ativa, sempre satisfeita com tudo, ela me tratava como uma princesa, me enchendo de mimos. E me chamava de “Minha Pérola”. Todos os cuidados para comigo, sua primeira neta.
Eu tinha muitos tios e tias, poucos primos. E uma prima engraçada chamada Lu. Brincávamos de boneca, macacão e pongadá, na alpendrada sempre cheia de luz, com um vento quente soprando dos pastos cheios de gados e trazendo o perfume do velho jasmineiro eternamente florido. Uma mulher negra, de nome Zifinha, da voz troante, mas doce de colo e de sorriso, nos vigiava de perto. Uma folguinha, e fugíamos para o brejo dos fundos da casa, onde ficava a parte mais deliciosa daquele lugar: o Engenho.
As terras da Fazenda Juá, cortadas pelo Rio Itapicuru, eram roxas, férteis, abundantes, acolhedoras. Vários descendentes da escravatura moravam numa área doada pelo meu avô Dantinhas, um homem pacífico, alto, branco, de bigodes fartos. E doara de papel passado, direitos garantidos em cartório. Ali todos, sem distinção, eram tratados com respeito, recebiam atenção, trabalho, ajuda. Era grande o movimento na cozinha farta de vovó Elza.
Naquele dia o engenho fervilhava. O depósito estava abarrotado de canas e os carros-de-bois cantavam na subida do riacho, indo e vindo do canavial. Duas cangas de bois de tração, tangidas por um molecote giravam a moenda de ferro, enorme, alimentada, sem cessar, por um homem de aparência frágil chamado Valdemar. E a garapa espumante corria por uma calha de madeira, caindo com barulho no tanque de cimento protegido do sol por uma cobertura de palhas de coqueiros.
Os tachos cheios de mel em vários estágios ferviam sobre trempes de alvenaria. Os homens fortes, de troncos desnudos, negros, cobertos de suor mexurucavam com pás enormes o mel nos tachos de cobre. Idelfonso, Zé Mané, Castulino, Epifânio, Seu Degas, Joaquim de Anselmo, João Caburé eram a alma da indústria de rapaduras e açúcar mascavo do meu avô. Gente nascida e criada ali perto, com suas mulheres e seus filhos, suas casas de sapê, sua dignidade, suas roças de plantar e de colher.
E a fama do Engenho do Juá saltava as fronteiras de suas terras. Rapaduras apuradas, canas de qualidade, brejos enxutos, arenosos, sem olheiros, terrenos sem sal, cortados por nascentes que deságuam no Itapicuru, lá no limite dos pastos. E nós ficávamos por ali paparicadas por aquela gente trabalhadora, em meio às abelhas e marimbondos, inofensivos, bebendo garapa, comendo rapas, as caras lambuzadas de mel de cana-caiana.
Nas férias passávamos um mês inteiro comendo os deliciosos quitutes de vovó Elza. E o retorno era uma tristeza. No terreiro da frente, muitas mãos para as despedidas. O meu avô dava pressa, o burro branco ostentando alvíssimo coxinilho. Minha avó, madrinha de batismo, me tomava no colo até o último minuto. E acenava um lenço branco até sumirmos por trás de uma alameda de baraúnas, árvores nobres, madeira de qualidade, do âmago daquelas terras. Como a minha boa gente...
                              
                                Fim


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