quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Os cegos de coração

Prisioneiros. Mentes alteradas pelos apelos do mundano. É mais fácil ser "in" do que ouvir a voz da razão. Cinjo-me com o sorriso sem freios de minha fada e com o canto magistral de minha Sabiá. Meus excrementos são mais olentes que o que se lhes esvai da alma. O absurdo é o vosso gueto. Fartai-vos.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Gaia disse não!

Pela primeira vez, em mais de 40 anos, as deliciosas e prolíferas cajás-umbus (três pés) que ladeiam a nossa casa lá da roça, sinalizaram que não vai haver safra.  Novembro traz as flores, as abelhas, os mangangás e os inchuís, os quais fazem uma festa desde o alvor até o arrebol, polinizando-as e transmutando-as em frutos pequeninos, doirados, para daí a quatro meses proporcionar a uma gama de viventes, incluindo arapuás, marimbondos, abelhas, inchuís, passarinhos (os alados), formigas, catendes, bois, equinos, asininos, caprinos, ovinos, e a nós, humanos, o supra-sumo do mel agri-doce, desenjoativo, daqueles frutos orgásticos.  Pus as minhas barbas brancas de molho...

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Jesus Cristo, superstar.

"Tudo que vos afligirdes o espírito, terá de ser expurgado. Se o fazeis pela metade, o restante será o veneno da tua alma e do teu corpo."

Acho eu, pobre escriba, que essa máxima cristã foi (bio) grafada pelo apóstolo Tiago. Cristo nunca escreveu nada, nem precisava. O que disse, e o que disse norteou o modus vivendi dos povos ocidentais, foi traduzido pelos que o seguiam, apesar do beijo traidor de Judas e da negação de Pedro. Eu entro nessa história pura e simplesmente para protestar contra as músicas que infestam nossas ruas, nossas rádios, e nossos canais de tvs nordestinos (extensível a todo território nacional.)  Ofendem a min'alma e maceram o meu corpo. PUÁÁ!  

terça-feira, 24 de novembro de 2009

IRÃ/BRASIL

Soa esquisito mas atraente, a visita do presidente do Irã, foneticamente identifcado como "Armadinejá", ao País do pernambucano Lula. Eles têm muita coisa em comum, salvas as devidas proporções (só para dar um explo): o primeiro nega o holocausto, um fato inominável, inconteste,  que o povo germano referendou (à época, e quiça ainda hoje legitime); do lado de cá, vem Lula (em quem depositei meu voto todas as vezes em que ele pleiteou a presidência, mas hoje não o faria) e nega o mensalão, e ainda, de quebra, quer nos empurrar a antipática Dilma. Por outro lado, o presidente iraniano reivindica um terrítório legítimo para os palestinos, povo sofredor, vilipendiado pelos israelenses (insanos (digo dos palestinos),  por força da desonra perpretada pelo opressor) o que acho muito veraz (digo da causa palestina); do lado de cá, o petista (PT?ARGG!) conseguiu projetar o Brasil, apesar de todas as mazelas ainda existentes. Enquanto isso, sou sacaneado por um magote de cafajestes, e o Planeta é maltratado despudoradamente. Não perdem por esperar.


sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Existencialismo

O ser concreto, limitado pelas teias da própria existência, é uma coisa pavorosa. Não somos livres, em sã consciência, não podemos "não morrer".

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Enigma cósmico

Dizem os doutos em ciências físicas e astronômicas, que o Universo teria se formado há 17, 4 bilhões de anos. Onde será que esses "malucos" arranjam subsídios para tal estimativa? Digamos que eles podem até ter razão. Mas, o que inquietia mesmo, é o vislumbre do que havia antes. Digo da matriz originária de tão formidável espectro. E mais, fico entalado, minha cabeça da um nó, só de pensar na pequenez humana, que tanto se esforça, ora conscientemente, para destruir um fragmento ajustado, perceptível à nossa vã condição ( o planeta Terra), desse mistério perturbador. É revoltante imaginar que essa obra fantástica de mais de 4 bilhões de anos, poderá deixar de existir em pouco mais de um século (desde o advento da indústria). Você duvida disso? A humanidade não merece Gaia. Somos uns gaiatos cósmicos.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O malandro que virou jegue (final)

(...) Amargou um longo tempo detido, lavando banheiros e comendo o pão-que-o-diabo-amassou. Liberto, sem dinheiro nem documentos, sofrendo de uma bronquite crônica, não era nem sombra do moleque brincalhão que alegrava os conterrâneos. Capengando nitidamente, vagou sem rumo pelas ruas, desnorteado, faminto, mendigando um cigarro e um prato de comida, dormindo em bancos de jardins, curtindo a maior frieza. Um farrapo humano.
        Certa manhã, passava em frente a uma construção quando foi atraido pela verborragia dos operários, nordestinos em processo de aculturação mas ainda com vestígios de fala sertaneja. Deu meia-volta, entrou timidamente no pátio repleto de materiais e serventes, sendo logo olhado com desconfiança, tal o estado lastimoso. Apareceu o mestre-de-obras, um cearense desbotado, que indagou de sua presença. Olhos no chão, falou debilmente:
      - Ando à procura de um trabalho...
        Rá! Rá! Rá! Rá!, explodiu no pátio, a gargalhada do operariado expectante. Aonde um molambo daquele ia arranjar força pra mexer uma masseira ou subir escadas com 50 quilos nas costas?
      - Vai comerrr farinha, paraiba! - dizia um, puxando nos "erres".
      - Donde tu veio não tinha comida não, baiano! - falava outro.
      - Cadê a peixeira, perrrnambuco? - gozava aqueloutro.
      Eram todos sertanejos, alguns com menos de ano na cidade, mas já devidamente integrados ao meio, e, fato contraditório, renegando a região de origem, discriminando os novatos, como costumavam fazer os paulistanos.
      - O que é que tu sabe fazerrrr, Ceará? - perguntou o mestre-de-obras.
      Titubeio, vergonha, ombros arriados, pé ciscando o chão, fala chocha:
      - Nunca trabalhei em obra, mas posso aprender...  
      - Mas você nunca mexeu com nada, meu? - tornou o outro.
      - Bem, eu fui camelô uns seis meses... Também canto como passarinho e rincho como jegue...
      Rá! Rá! Rá! Rá!, a mão-de-obra, deliciada com a situação, inclusive o mestre, que falou:
      - Então arremede aí um galo-de-campina pra mim ver!
      O malandro ergueu os olhos, mexeu nervosamente os lábios, e debulhou, por um tempo que pareceu interminável, melodiosa ornitofonia, embutindo cantos de vários pássaros a curtos interregnos. A mão-de-obra mal paga e o mestre  sem capacete, ouviram-no sem interromper, pensativos e sensibilizados. De repente, foram transportados para seus rincões: uns lembraram dos sabiás-brancos no pé-de-mandacaru dos fundos da casa; outros, da nuvem de pássaros-pretos nos liculizeiros da malhada; outros mais, dos coleirinhas, dos papa-capins e bigodes que politonavam nas quixabeiras das rocinhas paternas, imagens caras que queriam sufocar, mas não podiam.
      - E o jegue?... Não vai arremedar não?... - o mestre, os olhos prenhes de lágrimas.
      Pela reação da platéia, muda e respeitosa, deduziu que agradava. E nunca em sua vida zurrou com tanta perfeição.

     "OOOOONNNNN!...OOOOONNNN!...IISS-OOONNN!...IISSOOONNN!...IISS-OOONNN!...IICS!...IICS!...IICS!...BURRR!...Burr!...burr!..."

     A reação foi um misto de choro e galhofa. Cercado, recebendo tapinhas amistosos nas costas, ouviu da boca do mestre, que se recompusera:
     - Vou lhe arranjarrr uma colocação. Mas não pense que que ninguém aqui vai lhe passarrr a mão na cabeça. Aqui é trabalho pra cabra macho!

      Ficou engajado na construção de mais um dos arranha-céus que pareciam brotar espontaneamente da cidade de São Paulo. Como soubera de antemão, o serviço era um osso duro de roer. Masseiras coguladas de brita e cimento, blocos descomunais, vigas de ferro e aço pesando mais do que a serpente, tudo isso ele tinha de manejar, com outros serventes, para suprir os pedreiros que cada vez mais distanciavam-se do chão, com a subida vertiginosa do prédio de apartamentos.
      Ganhou o apelido de Jegue da Natuba, pois, volta e meia, para satisfazer pedidos, zurrava que nem um condenado. Até gostava do dichote. Era uma forma de se sentir destacado, importante, alvo de cortesias e brincadeiras.
      - Sobe uma massa aí, jegue magro!
      - Olha o tijolo com rincho, jegue ronceiro!
      - Salta um vergalhão e um rincho caprichado, jegue baiano!
     
      "OOOONNNN!...IISS-OONN!...IISS-OONN!...IISS-OONN!...ICS!...ICS!...ICS!...BURR!...Bur!...Bur!..."

       Rá! Rá! Rá! Rá!, estourava o edifício em risos desbragados. E ele ria junto, mesmo debaixo de um peso maior do que o seu, subindo degraus em caracóis. Até o dia em que viu morrer o primeiro colega. Um sergipano da cidade de Tobias Barreto, no estado sergipe, ali pelas vizinhanças de seu torrão natal, um baixote caladão que costumava ficar com ele na hora do grude requentado, e a quem fazia o obséquio de ler as cartas mal-ajambradas provindas daqueles pagos, pisara em falso e despencara lá do último andar, caindo como um coco seco e manchando o pátio de sangue, os ouvidos estourados. Uma ambulância apareceu apitando, levou o corpo recoberto com papelão, velado sem velas e com choros apressados.
       - Vamos lá, pessoal! Lavem esse chão e bola pra frente! São Paulo não pode parar! - do engenheiro responsável pela construção.
       Depois despencou outro e mais outro e mais outros, numa sequência macabra. E que em breve viraria rotina, com a maioria dos tristes-sinas fazendo piadas da sua indelével sensibilidade, apesar da crueza do dia-a-dia, apesar de mais um corpo estraçalhado levando embora pelos impassíveis homens de branco dos rabecões sinistros.
       - O jegue hoje tá muzumbudo! Lasque um rrrincho aí, pastorrr das besta!!!
       Quando chegaria a sua vez? Foi sendo tomado por um pavor tremendo, de uma vontade louca de voar, de uma necessidade premente de tornar à sua querência, a evocá-la dos sonos estremecidos. Tentava economizar para a passagem de volta, mas... embalde, o ganho irrisório não contribuía. Ficava todo nos balcões sarcásticos das padarias galegas e num cortiço imundo do Capão Redondo. E foi percebendo que a terra-mãe, estéril e agreste, às vezes traiçoeira mas nunca desamada, agora era um sonho quase intangível. E foi deduzindo que ele, para um jegue, só faltava mesmo a cangalha e um par de caçuás. E zurrava de desespero, burro de carga a pisar com cuidado nos degraus da morte:

      "OOOOOONNNNN!... OOOOONNNNNN!...IICCSS-OOONNN!...IICCSS-OOONNN!...ICS-OONN!...IICS!...ICS!...BURR!...Burr!...burr!..."

                          "Essa história, extraida do livro de contos TERRA E SOL, é uma história de ficção baseada em fatos reais".


       Nota do autor: o protagonista só voltou à Natuba quando da publicação desse livro, em l997, do qual tomou ciência através de parentes. Chegou dirigindo um carro em bom estado, com a mesma picardia doutrora, dizendo-se investigador de polícia, quando na verdade comprovou-se que era padeiro, e ameaçando o autor de levá-lo às barras da justiça, pelo protagonismo, se o mesmo não "molhasse a sua mão". E as galinhas que eu carreguei de graça pra ele, quando era menino (de parceria com Tonho de Cota, seu ajudante (mal) assalariado, não conta não?).