quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Os cegos de coração

Prisioneiros. Mentes alteradas pelos apelos do mundano. É mais fácil ser "in" do que ouvir a voz da razão. Cinjo-me com o sorriso sem freios de minha fada e com o canto magistral de minha Sabiá. Meus excrementos são mais olentes que o que se lhes esvai da alma. O absurdo é o vosso gueto. Fartai-vos.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Gaia disse não!

Pela primeira vez, em mais de 40 anos, as deliciosas e prolíferas cajás-umbus (três pés) que ladeiam a nossa casa lá da roça, sinalizaram que não vai haver safra.  Novembro traz as flores, as abelhas, os mangangás e os inchuís, os quais fazem uma festa desde o alvor até o arrebol, polinizando-as e transmutando-as em frutos pequeninos, doirados, para daí a quatro meses proporcionar a uma gama de viventes, incluindo arapuás, marimbondos, abelhas, inchuís, passarinhos (os alados), formigas, catendes, bois, equinos, asininos, caprinos, ovinos, e a nós, humanos, o supra-sumo do mel agri-doce, desenjoativo, daqueles frutos orgásticos.  Pus as minhas barbas brancas de molho...

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Jesus Cristo, superstar.

"Tudo que vos afligirdes o espírito, terá de ser expurgado. Se o fazeis pela metade, o restante será o veneno da tua alma e do teu corpo."

Acho eu, pobre escriba, que essa máxima cristã foi (bio) grafada pelo apóstolo Tiago. Cristo nunca escreveu nada, nem precisava. O que disse, e o que disse norteou o modus vivendi dos povos ocidentais, foi traduzido pelos que o seguiam, apesar do beijo traidor de Judas e da negação de Pedro. Eu entro nessa história pura e simplesmente para protestar contra as músicas que infestam nossas ruas, nossas rádios, e nossos canais de tvs nordestinos (extensível a todo território nacional.)  Ofendem a min'alma e maceram o meu corpo. PUÁÁ!  

terça-feira, 24 de novembro de 2009

IRÃ/BRASIL

Soa esquisito mas atraente, a visita do presidente do Irã, foneticamente identifcado como "Armadinejá", ao País do pernambucano Lula. Eles têm muita coisa em comum, salvas as devidas proporções (só para dar um explo): o primeiro nega o holocausto, um fato inominável, inconteste,  que o povo germano referendou (à época, e quiça ainda hoje legitime); do lado de cá, vem Lula (em quem depositei meu voto todas as vezes em que ele pleiteou a presidência, mas hoje não o faria) e nega o mensalão, e ainda, de quebra, quer nos empurrar a antipática Dilma. Por outro lado, o presidente iraniano reivindica um terrítório legítimo para os palestinos, povo sofredor, vilipendiado pelos israelenses (insanos (digo dos palestinos),  por força da desonra perpretada pelo opressor) o que acho muito veraz (digo da causa palestina); do lado de cá, o petista (PT?ARGG!) conseguiu projetar o Brasil, apesar de todas as mazelas ainda existentes. Enquanto isso, sou sacaneado por um magote de cafajestes, e o Planeta é maltratado despudoradamente. Não perdem por esperar.


sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Existencialismo

O ser concreto, limitado pelas teias da própria existência, é uma coisa pavorosa. Não somos livres, em sã consciência, não podemos "não morrer".

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Enigma cósmico

Dizem os doutos em ciências físicas e astronômicas, que o Universo teria se formado há 17, 4 bilhões de anos. Onde será que esses "malucos" arranjam subsídios para tal estimativa? Digamos que eles podem até ter razão. Mas, o que inquietia mesmo, é o vislumbre do que havia antes. Digo da matriz originária de tão formidável espectro. E mais, fico entalado, minha cabeça da um nó, só de pensar na pequenez humana, que tanto se esforça, ora conscientemente, para destruir um fragmento ajustado, perceptível à nossa vã condição ( o planeta Terra), desse mistério perturbador. É revoltante imaginar que essa obra fantástica de mais de 4 bilhões de anos, poderá deixar de existir em pouco mais de um século (desde o advento da indústria). Você duvida disso? A humanidade não merece Gaia. Somos uns gaiatos cósmicos.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O malandro que virou jegue (final)

(...) Amargou um longo tempo detido, lavando banheiros e comendo o pão-que-o-diabo-amassou. Liberto, sem dinheiro nem documentos, sofrendo de uma bronquite crônica, não era nem sombra do moleque brincalhão que alegrava os conterrâneos. Capengando nitidamente, vagou sem rumo pelas ruas, desnorteado, faminto, mendigando um cigarro e um prato de comida, dormindo em bancos de jardins, curtindo a maior frieza. Um farrapo humano.
        Certa manhã, passava em frente a uma construção quando foi atraido pela verborragia dos operários, nordestinos em processo de aculturação mas ainda com vestígios de fala sertaneja. Deu meia-volta, entrou timidamente no pátio repleto de materiais e serventes, sendo logo olhado com desconfiança, tal o estado lastimoso. Apareceu o mestre-de-obras, um cearense desbotado, que indagou de sua presença. Olhos no chão, falou debilmente:
      - Ando à procura de um trabalho...
        Rá! Rá! Rá! Rá!, explodiu no pátio, a gargalhada do operariado expectante. Aonde um molambo daquele ia arranjar força pra mexer uma masseira ou subir escadas com 50 quilos nas costas?
      - Vai comerrr farinha, paraiba! - dizia um, puxando nos "erres".
      - Donde tu veio não tinha comida não, baiano! - falava outro.
      - Cadê a peixeira, perrrnambuco? - gozava aqueloutro.
      Eram todos sertanejos, alguns com menos de ano na cidade, mas já devidamente integrados ao meio, e, fato contraditório, renegando a região de origem, discriminando os novatos, como costumavam fazer os paulistanos.
      - O que é que tu sabe fazerrrr, Ceará? - perguntou o mestre-de-obras.
      Titubeio, vergonha, ombros arriados, pé ciscando o chão, fala chocha:
      - Nunca trabalhei em obra, mas posso aprender...  
      - Mas você nunca mexeu com nada, meu? - tornou o outro.
      - Bem, eu fui camelô uns seis meses... Também canto como passarinho e rincho como jegue...
      Rá! Rá! Rá! Rá!, a mão-de-obra, deliciada com a situação, inclusive o mestre, que falou:
      - Então arremede aí um galo-de-campina pra mim ver!
      O malandro ergueu os olhos, mexeu nervosamente os lábios, e debulhou, por um tempo que pareceu interminável, melodiosa ornitofonia, embutindo cantos de vários pássaros a curtos interregnos. A mão-de-obra mal paga e o mestre  sem capacete, ouviram-no sem interromper, pensativos e sensibilizados. De repente, foram transportados para seus rincões: uns lembraram dos sabiás-brancos no pé-de-mandacaru dos fundos da casa; outros, da nuvem de pássaros-pretos nos liculizeiros da malhada; outros mais, dos coleirinhas, dos papa-capins e bigodes que politonavam nas quixabeiras das rocinhas paternas, imagens caras que queriam sufocar, mas não podiam.
      - E o jegue?... Não vai arremedar não?... - o mestre, os olhos prenhes de lágrimas.
      Pela reação da platéia, muda e respeitosa, deduziu que agradava. E nunca em sua vida zurrou com tanta perfeição.

     "OOOOONNNNN!...OOOOONNNN!...IISS-OOONNN!...IISSOOONNN!...IISS-OOONNN!...IICS!...IICS!...IICS!...BURRR!...Burr!...burr!..."

     A reação foi um misto de choro e galhofa. Cercado, recebendo tapinhas amistosos nas costas, ouviu da boca do mestre, que se recompusera:
     - Vou lhe arranjarrr uma colocação. Mas não pense que que ninguém aqui vai lhe passarrr a mão na cabeça. Aqui é trabalho pra cabra macho!

      Ficou engajado na construção de mais um dos arranha-céus que pareciam brotar espontaneamente da cidade de São Paulo. Como soubera de antemão, o serviço era um osso duro de roer. Masseiras coguladas de brita e cimento, blocos descomunais, vigas de ferro e aço pesando mais do que a serpente, tudo isso ele tinha de manejar, com outros serventes, para suprir os pedreiros que cada vez mais distanciavam-se do chão, com a subida vertiginosa do prédio de apartamentos.
      Ganhou o apelido de Jegue da Natuba, pois, volta e meia, para satisfazer pedidos, zurrava que nem um condenado. Até gostava do dichote. Era uma forma de se sentir destacado, importante, alvo de cortesias e brincadeiras.
      - Sobe uma massa aí, jegue magro!
      - Olha o tijolo com rincho, jegue ronceiro!
      - Salta um vergalhão e um rincho caprichado, jegue baiano!
     
      "OOOONNNN!...IISS-OONN!...IISS-OONN!...IISS-OONN!...ICS!...ICS!...ICS!...BURR!...Bur!...Bur!..."

       Rá! Rá! Rá! Rá!, estourava o edifício em risos desbragados. E ele ria junto, mesmo debaixo de um peso maior do que o seu, subindo degraus em caracóis. Até o dia em que viu morrer o primeiro colega. Um sergipano da cidade de Tobias Barreto, no estado sergipe, ali pelas vizinhanças de seu torrão natal, um baixote caladão que costumava ficar com ele na hora do grude requentado, e a quem fazia o obséquio de ler as cartas mal-ajambradas provindas daqueles pagos, pisara em falso e despencara lá do último andar, caindo como um coco seco e manchando o pátio de sangue, os ouvidos estourados. Uma ambulância apareceu apitando, levou o corpo recoberto com papelão, velado sem velas e com choros apressados.
       - Vamos lá, pessoal! Lavem esse chão e bola pra frente! São Paulo não pode parar! - do engenheiro responsável pela construção.
       Depois despencou outro e mais outro e mais outros, numa sequência macabra. E que em breve viraria rotina, com a maioria dos tristes-sinas fazendo piadas da sua indelével sensibilidade, apesar da crueza do dia-a-dia, apesar de mais um corpo estraçalhado levando embora pelos impassíveis homens de branco dos rabecões sinistros.
       - O jegue hoje tá muzumbudo! Lasque um rrrincho aí, pastorrr das besta!!!
       Quando chegaria a sua vez? Foi sendo tomado por um pavor tremendo, de uma vontade louca de voar, de uma necessidade premente de tornar à sua querência, a evocá-la dos sonos estremecidos. Tentava economizar para a passagem de volta, mas... embalde, o ganho irrisório não contribuía. Ficava todo nos balcões sarcásticos das padarias galegas e num cortiço imundo do Capão Redondo. E foi percebendo que a terra-mãe, estéril e agreste, às vezes traiçoeira mas nunca desamada, agora era um sonho quase intangível. E foi deduzindo que ele, para um jegue, só faltava mesmo a cangalha e um par de caçuás. E zurrava de desespero, burro de carga a pisar com cuidado nos degraus da morte:

      "OOOOOONNNNN!... OOOOONNNNNN!...IICCSS-OOONNN!...IICCSS-OOONNN!...ICS-OONN!...IICS!...ICS!...BURR!...Burr!...burr!..."

                          "Essa história, extraida do livro de contos TERRA E SOL, é uma história de ficção baseada em fatos reais".


       Nota do autor: o protagonista só voltou à Natuba quando da publicação desse livro, em l997, do qual tomou ciência através de parentes. Chegou dirigindo um carro em bom estado, com a mesma picardia doutrora, dizendo-se investigador de polícia, quando na verdade comprovou-se que era padeiro, e ameaçando o autor de levá-lo às barras da justiça, pelo protagonismo, se o mesmo não "molhasse a sua mão". E as galinhas que eu carreguei de graça pra ele, quando era menino (de parceria com Tonho de Cota, seu ajudante (mal) assalariado, não conta não?).

sábado, 14 de novembro de 2009

O malandro que virou jegue (cont.)

... Foi morar em São Miguel Paulista, periferia, reduto dos nordestinos migrantes. De começo tudo correu muito bem. Adquiriu uma barraca de camelô e passou a frequentar a Praça da Sé, paraiso da camelotagem e da malandragem. Negociante sagaz, em pouco tempo dobrou o capital investido. A continuar daquela forma, dentro de um ano voltava casado do sertão. Ia indo muito bem, comercializando suas bugiarias com um tino e uma eloquência que enchiam de inveja os vizinhos do ramo. De posse de um megafone, rasgava a goela na frente da banca:
     - Olha o óleo do peixe-elétrico, excelente diurético contra os males da uretra, prisão de ventre, dores lombares e eticetra!... Espinhela caída, rinhada defeituosa, colesterol na barriga? A limonada Milagrosa é o arrelique da sua vida!... Seu marido tá sofrendo de nevralgia, descachimbado, minha senhora, leve pra ele o elixir  do Jeremias, o motor de arranque mais porreta fabricado na Bahia!... Chega meu povão, aproveite a promoção: leve dois pague dois e ganhe um aperto de mão!
     E lascava o bico a arremedar a passarada do sertão, atraindo compradores e curiosos, e açulando ainda mais o olho grande da concorrência. Aí a coisa desandou. Para malandro, malandro e meio. Um dia foi abordado por dois vigaristas disfarçados de fiscais do rapa, trajados a rigor, que foram logo lhe pedindo os documentos. Inadivertidamente entregou-lhes a capanga recheada. Um finge conferir a documentação, escorrega para trás, o outro vai tomando a frente, "fiscalizando" a mercadoria "o que é que você tem aí, meu?", e de repente o primeiro abre no mundo a cem por hora com todas as suas economias e uma certidão de batismo, único documento de que era portador.
     - Ôxe! Ôxe!, que brincadeira da peste é essa? - alarma-se, manjando o embuste.
     E joga o corpo pra diante, desembestando atrás do vagabundo. Logo na saida encontra o pé do outro vigarista na frente e cai de cara numa prateleira de tomates. Em meio às gargalhadas dos concorrentes, que haviam contratado o golpe, levanta-se de pronto, saca de um canivete, e parte como um louco atrás dos ladrões. A perseguição atravessa o camelódromo risonho e continua pelas ruas movimentadas. Ao dobrar de uma esquina perde os bandidos de vista mas continua a correr, canivete empunhado, ansiedade estampada na cara aflita, chamando a atenção dos transeuntes e da polícia, sem notar que os gatunos haviam ficado para trás, escondidos sob uma marquise. Adiante uma viatura policial encosta no meio-fio. Então deu-se o inesperado e ele passou de perseguidor a perseguido. Só tomou ciência quando ouviu a gritaria às suas costas:
      - Pega ladrão! Pega ladrão!
      - ?
      Sem deixar de correr olhou por cima do ombro e viu os dois bandidos na sua traseira apontando-o com o dedo e gritando para os policiais de prontidão no passeio público:
      - Pega! Pega! Segura esse meliante aí, parceiros!
      Quando deu por si, estava agarrado pelo colarinho. Esperneou em vão.
      - Não, não!, eu é que fui roubado por estes vagabundos, seu guarda!
      Difícil provar o argumento. Canivete empunhado, a roupa suja, ares de louco correndo na frente, contra as fardas impecáveis dos "fiscais" da Prefeitura e a desenvoltura desses:
      - O vagabundo estava assaltando uma loja, colega. - falou um.
      Canivete tomado, mãos na cabeça, pernas abertas, revista minuciosa de encontro à viatura.
      - Não, não!, foi eles que me roubaram a capanga, seu polícia!
      - O safado deve ter se descartado do produto do roubo durante a perseguição, colega - falou o outro "fiscal".
      E o policial autoritário, senhor da razão e dos destinos:
      - Cadê os documentos, paraiba?
      - Não, não!, eu sou baiano! O meu batistério tava na capanga que eles me roubaram!
      Em contrapartida, mil e uma carteiras, atestados, recibos, exibidos expontaneamente pelos vigaristas. Estava enrolado no xale-da-doida. Configurados crime e culpa, veio o castigo:
      - Borracha e camburão no meliante, soldado!
      Ordenou o comandante da patrulha a um sobordinado parrudo com cara de fera. Aí os "fiscais" saltaram à frente:
      - Fazemos questão, tenente. O salafrário nos deu a maior canseira. Permite?
      Permissão obtida, cairam de cassetetes e pontapés no lombo do alucinado e desditoso Jerson, ali mesmo na calçada larga apinhada de curiosos.
      (cont.)  
     

O malandro que virou jegue (cont)

(...)                                             "Adeus meu pedaço de chão
                                                  " Adeus minha terra morena
                                                   Quem fica não tem opção
                                                   Quer avoar e não tem pena
                                                   Quer comer e não tem pão.

                                                   Por isso vou mimbora
                                                   Meus sonhos vou perseguir
                                                   Quem espera não faz a hora
                                                   Nem alcança o porvir
                                                   Prefiro chorar lá forao cons
                                                   Do que rir sem graça aqui."

        Com esses dois versos, despediu-se Jerson, que também era poeta e ninguém sabia, de seu torrão natal. E subiu no pau-de-arara lotado, levando na matulagem, além da mala-de-couro, de um farnel sortido e de uma jaca mole, a benção dos pais e um adeus choroso da noiva Maria de Belo Barão, devidamente aliançada, uma morena beata, prendada e cadeiruda.
        O caminhão começou a gemer, estralando a carroçaria, e avançou lentamente pelas ruas encascalhadas, disposto a enfrentar vinte dias de dificuldades. O dia amanhecera por inteiro, o ar parado, seco, nenhuma gotinha de orvalho nas árvores mirradas, meio ano sem uma chuva. O inverno anterior mal-mal criara uns carocinhos chochos de feijão. Milho? Nem pra remédio! Abóbora, batata, aipim?, semente jogada fora. A rigor, apenas os umbuzeiros e os juazeiros viçavam, contrastando com a terra vermelha e a arbustada ressequida. O céu era de um azul diáfano, nuvem nenhuma. A leste o sol, medonha bola de fogo, subira já mais de palmo no horizonte. Despertava a bicharada morta-viva do jejum noturno, sepultava no chão rachado a esperança dos homens. O ciclo infausto varava os séculos, tangia as décadas, empurrava os anos, açoitava os meses, enchia os dias. O pau-de-arara solitário engolia as léguas na direção do sul. levava a bordo dezenas de sonhos que se perderiam entre os arranha-céus frios e indiferentes da grande São Paulo. Sonhos natimortos.

    





O malandro que virou jegue (cont)

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O malandro que virou jegue (cont)

(...) Protegido pela escuridão da madrugada, um vulto furtivo esgueirava-se pelas esquinas, trazendo a tiracolo pesado volume, posto que vinha menso e trocava-o de mão de vez em quando. À altura do coreto, o malandro Jerson desgarrou-se das paredes, cruzou solerte a pista de cascalho, pisou o jardim, arriou a lata de querosene cheia de estrumes, desfolhou umas quatro árvores, espatifou um bocado de grama, entornou parte do conteúdo da lata, ergueu o corpo, olhou pros lados, estufou o peito, e lascou um zurro sensacional, perfeito ao estremo:

      "OOOOONNNN!...IS-OONN!...IS-OONN...IS-OONN!...IISS!...IISS!...IISS!..."

       Depois passou a mão na lata, e, lépido, rindo em surdina, atravessou a praça, postando-se na esquina do Beco do Quinze, donde assuntou o efeito da molecagem. Alvoroço, pisa-pisa, xíngos terríssonos, frases irosas no ar:
       - Óia lá, Tonho, é aquele cão de novo! Avia, vamos abufelar esse surunco! - bradava o violeiro.
       - Hoje num posso, seu Jerome. Tô macumbado... - falou o homenzinho, a voz transida de  medo.
       Não resistira a uns charutos, temerosa mas imperativamente auferidos de um despacho naquela noite, e, carregado, tremelicava a um canto. O violeiro desconjurou-o da sorte e desceu os degraus do coreto bufando, partindo célere, cabresto na mão, em direção ao local donde brotara o paracé. À essa altura, o "jegue" atuava em outra área, zurrando, pisoteando canteiros, avariando mudas, ferindo os ouvidos das casas adormecidas.
      E enquanto durou o suprimento de esterco fedorento do jumento Bacamarte, de sua propriedade, famanaz touro-de-bestas que anteriormente escandalizava dia e noite a nata da soçaite e deleitava a ignara plebe da Natuba, atropelando jegas, burras, éguas e até vacas com seu voraz apetite sexual, antes liberto por aí e agora dividindo humilhante fundo de quintal com porcas e galinhas goguentas, por força de um decreto-lei incôngruo, o malandro Jerson levou às raias da loucura o iracundo violeiro.
      E aquilo se repetiria noite a noite, semana a semana, causando a demissão dos vigias, a exoneração do secretário boa-vida, uma missa de esconjuro no coreto, o gáudio da oposição política, medo aos superticiosos, que eram muitos e ameaçavam abandonar a cidade, e levando o furente prefeito a instituir um prêmio em dinheiro vivo para quem lhe trouxesse a cabeça do famigerado asno.

       Estavam lá, afixados nos postes de madeira, para quem soubesse ler ou a quem interessar pudesse, indignando o sóbrio e acadêmico Cardoso Pena-Grossa, e deliciando o anarquista e livre-pensador Esmeraldo Gordurinha, a inteligentísia da Natuba:

        "PAGA-ÇE, EM MUEDA CORRENTI DO PAIZ,
        A QUÃTIA DE 500 MIU REIZ, PARA QUEM
        CAPITURÁ, VIVO OU MORTO, A PESSOA
        DO JEGUI ENCANTADO. TRATÁ DIRETAMENTI
        COM O CHEFI DO EZECUTIVO.
        Natuba, 13 de maio di l958."

        Desconhecendo que a troca da moeda para o cruzeiro se dera meio século atrás, o secretário namorador, readmitido mediante eficaz e concorrido lobby feminino, redigiu e colou na posteação dezenas de cópias do extravagante cartaz. Meio conto de réis! Uma fortuna possuída apenas pelos políticos e fazendeiros do lugar. Ninguém mais dormiu naquela cidade, inclusive os superticiosos, que mandaram o medo pra cucúia. Homens, meninos, e até mulheres, espingardas e cabrestos a tiracolo, esgaravatavam os quatro cantos da praça até a aurora, fazendo mais estragos no jardim do que o jegue fantasma, que continuava com as suas diabruras.
        Misturado ao povo, o malandro Jerson a princípio achara a situação hilariante, mas logo veio-lhe o estalo: meio conto de réis dava e sobrava para uma passagem no pau-de-arara de Zé Lopes. Mas ainda achou pouco. Quem sabe o prefeito não aumentava a recompensa e lhe permitiria botar uma banca de miudezas lá nas ruas maravilhosas de São Paulo? E caprichou na dilapidação. Apurou o zurro, arrancou plantas a tapa, esbagaçou grama japonesa, furou tonéis, cagou na entrada da Igreja, mijou no batente da Casa Paroquial, derrubou a porta da prefeitura com um coice, quebrou metade dos bancos do jardim, na esperança de ver crescer o valor da recompensa estipulado nos cartazes. E não deu outra. Uma semana depois, a cifra atingia a extraordinária quantia de "HUN  COMTO  DE  REIZ". Aí deu pra ele.
        Uma manhã encabrestou o jumento Bacamarte e na maior cara-de-pau, foi reclamar o prêmio na prefeitura, dando o ouvido a tapa se daquele dia em diante "ninguém mais assuntar um rincho de jegue nesse comércio"!
         - Pode ficar sossegado, viu dotô Juquinha! A culpa é toda desse pai-dégua escroto! Quer um conselho? Mande arrancar logo os quibas deste peste sonso! - falava o malandro, metendo o chute no fumeiro do jumento.
          O fato é que cessaram as incursões fatasmagóricas. E apesar da desconfiança do político, de seus assessores, e do povo todo do lugar, que sabia ser o malandro capaz de qualquer ação para extrair lucros, este embolsou a recompensa e preparou-se para a longa viagem. A viagem de seus sonhos.
           

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O malandro que virou jegue (cont.)

(...) A cidade iniciava seus primeiros movimentos. Aos poucos as pessoas iam aparecendo, algumas ainda bocejando, em trajos de dormir. Outras, mais ativas, já cumpriam tarefas. E as ruas se enchiam de leiteiros, entregadores de pão, escolares, mulheres empunhando vassouras, verborragicamente varrendo calçadas, lavadeiras com trouxas nas cabeças descendo para os riachos, homens dirigindo-se para suas roças, alguns abrindo vendas, dando prosas, ou simplesmente passeando a manhã cheia de sol. Tonho Baga cochilava de cabresto na mão, recostado num banco do jardim. O malandro achegou-se sorridente e sentou ao lado, puxando conversa:
      - Parece que perdeu a noite, Tonhinho? - sacudiu o homenzinho pelo ombro.
      O vigia ergueu a cara mal-dormida e abriu um olho, levando a mão à frente para livrar-se da claridade molesta do sol. Resmungou sem muita vontade:
      - Tô drumindo nada... É só uma páia...
      - Quer um cigarrinho?
      - Num é mal não...
      E estendeu a mão para receber um astória, acendendo-o com o fósforo que tambem lhe era ofertado. Deu duas tragadas fortes, animando o semblante caido.
      - O que foi que houve com Bugaju que tá ali enfezado? - futucou o malandro.
      O vigia abriu bem os olhos e esboçou um ar de contrariedade.
      - Home, tu num sabe de nada, Jé. Um jumento encapetado quase dóida nóis essa noite. Inté seu Jerome quebrou a viola de raiva.
      - Ah! Ah! Ah! Ah!
      - Num ria não qui o causo é sério. O disgramado estragou um bocado de pranta. Num sei o qui vai ser da gente quando seu Juquinha der com o dano. Óie quanto capim o bexiguento arrancô! - e apontou para uma área considerável de grama revolvida.
      - Ah! Ah! Ah! Ah! Até logo, Tonhinho! Eu vou ali no bilhar, fazer uma fezinha. Tome, fique aí com mais um cigarrinho. - passou-lhe outro cigarro e se foi rindo alto.
      Os aguadeiros iam e vinham, azafamados, enchendo dágua os tonéis distribuídos estratégicamente ao longo do jardim retangular, regado a baldes e panelas por um verdadeiro batalhão de funcionários sob o comando de Dudu Pedreiro, que se desdobrava para recuperar mudas de árvores pisoteadas e reconstituir tufos de grama.

       O prefeito Juca Ferreira, de chapéu de palhinha, gravata borboleta e terno impecavelmente branco de diagonal, entrou em seu gabinete cuspindo fogo e arrotando brasa. Verificara pessoalmente o estrago causado pelo estranho asno que subia degraus e nunca se deixava apanhar, e que os vigias, para fugirem ao uma possivel represália, alardeavam se tratar de um jegue encantado.
       - Dupla de energúmenos! Não servem para nada! Agora me saem com essa história de visagem! O diabo que os carregue pros infernos!
       Sentou-se à mesona, abriu um gavetão com tranca de pau, mergulhou a mão nervosa e voltou com uma garrafa de conhaque macieira, seu preferido, bebendo um generoso trago pelo gargalo. Devolveu a bebida ao local de origem, trancou a gaveta, e chamou um secretário:
       - Adamastor!
       O grito impaciente ecoou pelos corredores desertos da prefeitura.
       - Adamastor!
       Tornou o homem, os olhos vermelhos chispando. "Por aonde andará este mandrião"? Empregara o funcionário, parente remediado, namorador e boêmio, apenas por insistência das mulheres da família, que eram muitas e influentes, mas até já se arrependera. Sem demonstrar nenhuma pressa, um galalau bem-apessoado, mal saido da adolescência, penetrou no gabinete sem se anunciar.
       - Pronto, seu Juquinha, estou à vossa disposição... - falou, emprestando um tom humilde à voz capciosa.
       O prefeito enxugava a calva suada com um lenço e o mirou furibundo.
       - Adamastor eu vou lhe dar uma ordem e espero que essa seja rigorosamente cumprida! A partir de agora você fica diretamente responsável pela administração do jardim! Ponha mais aguadeiros, contrate mais gente para regar as plantas, prenda jegues, prenda também os donos se necessário, faça o diabo! Mas eu quero sucesso absoluto nessa empreitada! Compreendeu bem a minha ordem?!
       A par do ocorrido na noite anterior, como quase toda cidade, o secretário não pode reprimir o sarcasmo.
       - Bugaju mais Tonho Baga andam espalhando por aí que foi um jumento encantado, seu Juquinha...
       - E essa láia presta pra nada? São dois paus-de-bosta! Agora vá, vá cuidar de suas obrigações! - espantou o outro com um gesto nervoso.
       O secretário engoliu o riso e girou nos calcanhares, dirigindo-se para a saida. Antes de vará-la, porém, ainda ouviu:
       - Mesmo com a porta encostada, da próxima vez não esqueça de se anunciar! Ouviu bem?
       - Pode deixar, seu Juquinha. Não me esquecerei...
       Fechou a porta atrás de si e deu uma vigorosa banana na direção do político, que voltara às suas lucubrações. Aquele jardim era uma questão de honra, quer dizer, de votos. Era vital que estivesse a contento até o final do ano, quando serviria de palco para a festa da padroeira da cidade, Nossa Senhora da Conceição, época em que o lugar era invadido por romeiros do interior do município, pela população local e pelo povo das cidades circunvizinhas. O padre Galvão, promotor das santas-missões, naquela manhã lhe cobrara medidas mais enérgicas quanto à execução do valioso projeto. A já famosa dobradinha igreja-obras "faraônicas" nunca negava fogo.       
(...) Atravessaram o jardim, passaram raspando pelo coreto, e esbarraram a corrida na quina da Rua do Motor. Nada! A não ser outro monte de estrume fedorento na porta de uma venda.
      - Óie adonde o disgramado cagô... - Tonho Baga, a voz fraca.
      - Ah, se eu pego esse num-sei-o-que-diga! - o companheiro.  

      "OOOONNNN!...IS-OONN!...IS-OONN!...IS-OONN!...IISS!...IISS!...IISS!..."

Outro zurro escandaloso cortou a frase do violeiro, à esquerda de ambos.
      - Danou-se! Tá na prefeitura! - tornou o homem.
Avançaram pela pista encascalhada, o violeiro adiante, a viola no saco pulando que nem pipoca na panela quente, o outro mais atrás, a respiração em pane pelo esforço inesperado. Nada! Tonho Baga arriou o corpo mirrado nos degraus do principal edifício da cidade, e sentiu a mão mergulhar num negócio mole.
      - Êta gota serena! Isso é bosta! - xingou.
O outro vigia, alucinado de raiva, tirou a viola das costas e fez menção de espatifá-la na calçada.
      - Ô jumento excumungado! Ô cascabuio da disgraça!... Mas eu te pego, disinfiliz! - rasgou a garganta feito um louco.
Algumas casas acordaram. Choro de crianças, esporros, acalantos, pigarreios, homens resmungando. Da casa do delegado Ziconias, a dois passos dali, uma janela foi aberta. A chama tremulante de um fifó espantou a escuridão, alumiando a fachada do Armarinho de Dona Alzira, o único do lugar. Empunhando a candeia, a autoridade assomou a cabeça branca.
      - Bugaju, que diabo é isso? - reconhecera a voz do violeiro.
      - Num é nada não, seu Zicó! É só o diacho dum jegue!...
      - Ôxe, pensei que o mundo tava sacabando...
Outro zurro indecente, do centro do jardim, interrompeu o diálogo.

      "OOOONNNN!...IISS-OONN!...IS-OONN!...IS-OONN!...IISS!...IISS!...IISS!..."

      - Óia lá! Tá no coreto! Agora a gente pega esse disgraçado! Alevanta, Tonho! - alvoroçou-se o violeiro.
O companheiro, quase sem fala, balbuciou:
       -Vá na frente, seu Jerome...
       - Vambora, tísico! Que é qui faiz do qui come?
       O delegado soltou um riso de troça e fechou a janela, ficando novamente a rua às escuras. O violeiro deixou o auxiliar fazendo enfincapé para se erguer e rumou rapidamente para o local do zurro. "Jegue do cão! Jegue do cão!" Porém, mais uma vez, nem sinal do jumento. Subiu os nove degraus do coreto na intenção de guardar a viola junto a outros pertences, uma moringa e um paletó surrado. Infeliz decisão. Enfincou outra vez as alpercatas puídas numa enorme ruma de fezes caprichosamente postas no centro do piso de cerâmica vermelha. Foi a gota dágua. Picou o instrumento no chão, arrebentando-o em várias partes. E falava, mordido de ira:
       - Ô jegue do cabrunco pra cagá!... Cuma será que este levunco botou cá em riba?
       Depois do último feito, tão misteriosamente quanto surgira, o jumento desapareceu do cenário. E a praça mergulhou no silêncio.

        Manhãzinha seguinte, antes mesmo da quebra do jejum, Jerome Bugaju martelava a cabeça tentando consertar a viola. Tão empenhado estava, na frente de sua pequena casa de adobes, que nem se deu ao incômodo de erguer a vista para responder ao cumprimento de seu sociável vizinho Jerson de Zuca de Pombo. Vizinhos de paredes-meias.
       - Ô, muito bom-dia, capitão Jerome!
       - Grr!...
       - Oxente, quebrou a viola?
       - Grrrr!...
       Rosnou o homem, soltando fumaça pelo nariz de águia, um chapéuzinho de couro na cabeça miúda. E continuou concentrado na difícil tarefa de reparar o estrago em seu caríssimo instrumento. O malandro seguiu caminho assobiando alegremente um canto de passo-preto. Dobrou uma quina e foi sair na praça da Igreja matriz.
    
          

O Malandro que virou jegue (cont.)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O Malandro Que Virou Jegue (cont)


Tudo começou como uma brincadeira para afugentar o tédio. O principal jardim da cidade fora todo reformado, num pomposo empreendimento urbanístico. O prefeito Juca Ferreira fizera vir de um horto florestal de Salvador, dezenas de mudas de frondosas árvores, além de uma espécie de grama japonesa, que foram plantadas com o maior cuidado pelo paisagista Dudu Pedreiro. Dois funcionários da prefeitura, Jerome Bugaju e Tonho Baga, paus-para-toda-obra, ficaram incumbidos de vigiar diuturnamente os valiosos vegetais. Zelosos do ofício, esmeravam-se por levar a bom termo a honrosa tarefa, começando por capturar e prender no curral da matança, todos os animais herbívoros encontrados perambulando pela cidade e arredores. Logo o cercado de macambiras onde era efetuado o abate de bovinos se encheu de jumentos, principal meio de transporte da população. Ao final de uma semana, foi contabilizado a apreensão de 552 jericos, quase 1 per capita, que foram devolvidos aos respectivos donos com a advertência de que, havendo reincidência, os asnos seriam exportados para o Japão e a Coréia, onde viriam a ser transformados em jabá, como era do credo comum.
Primeira etapa cumprida, violeiro nas horas vagas e ranheta que nem marimbondo quando admoestado, Jerome Bugaju debulhava com prazer um desafio para uma só voz na sua viola de 20 cordas. Tonho Baga, que lhe era subordinado, matava o tempo dormitando ou fumando tocos de cigarros apanhados ao léu. Tudo na mais santa paz interiorana. Foi aí que o malandro Jerson entrou em cena com o propósito de lhes dar uma canseira. Naquele tempo, a energia do lugar provinha unicamente de um gerador cansado e o seu fornecimento iniciava-se com as ave-marias e cessava lá pelas 22 horas. Depois, as ruas ficavam entregues aos ladrões de galinha, amantes mais ousados, seresteiros, mulas-sem-cabeça e lobisomens. Não fosse por uma ou outra canção apaixonada ao som de violões e cavaquinhos, dir-se-ia que era uma cidade deserta. Os notívagos faziam de tudo pra não se deixarem ver.
Lá pela meia-noite de uma madrugada calorenta, estavam os dois vigias a dormitar no coreto, principal posto de observação. De repente, da esquina da Santa Cruz, uma "sirene" quebrou o silêncio sepulcral que vigorava na praça.

     "OOOOOONNNN!...IS-OONN!...IS-OONN!...IS-OONN!...IISS!...IISS!...IISS!...

Um Jegue!, marcando as horas! Os dois vigias ergueram-se às pressas. Teriam ouvido bem? Fora um jumento badalando a meia-noite? Espantados, olhavam um para o outro, alumiados por um candeeiro, quando outro zurro papocou de lá pra cá. Dessa vez, mais perto, do lado da matriz, que reinava imponente sobre a praça trevosa.

    "OOOOONNNN!...IS-OONN!...IS-OONN!...IS-OONN!...IISS!...IISS!...IISS!..."

Era um jumento mesmo! E o fio da peste tava comendo a grama dos canteiros da igreja do padre Galvão! Correram para lá. Bugaju, com a viola nas costas, metida num saco, falou, cuspindo brasa:
    - Vamo pegá este condenado,Tonho. Vá por ali queu vou por cá! - e apartaram-se.
Descreveram um círculo e fecharam em leque, bem onde o pastor das bestas deveria estar. Tudo limpo, nem sinal do excomungado. Como prova de que não houvera equívoco auditivo, o violeiro meteu as alpercatas de sola numa ruma de estrume, ainda quente daquela hora.
     - Êta disgraaçaa! Me atolei aqui! - praguejou.
O companheiro abafou um riso e falou:
     - Vamo dar um corte no beco de Zilinho, seu Jerome. O danado só poder ter escapulido por ali.
E entraram numa rua apertada, à toda velocidade. Avançaram alguns metros, saindo num descampado onde uma capelinha terminada em cruz delineava-se à luz das estrelas, quando outro zurro estalou às suas costas. Brecaram a carreira.
      - O fio da mulesta parece que tá no beco de Pidrito! Vamo vortar, Tonho!
E deram meia-volta, por cima do rastro. Tonho Baga, de frágil constituição física, cortado de cigarro, já botava os bofes pela boca; Bugaju, de porte atarracado e nariz de gavião na cara curta enfeitada por um bigodinho grosso, resfolegava de ira. Jeguinho da peste! Jeguinho da peste! Enquanto corria, a viola, apertada no saco, castigava-lhe o lombo.
(continua)...     

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O Malandro Que Virou Jegue (cont...)

(...)   - Ora mané palavra! Palavra o vento leva! - tornou o homem, o cenho franzido.
Estava na iminência de perder capital e isso para ele não tinha nenhuma graça. Se hoje era o que era, se aposentara a sanfona, devia e muito ao fato de ver sempre um tostão como um milhão. Infeliz idéia tivera, agora o sabia, de pegar a aposta com o malandro. Quando adquiriu o xexéu, desafiara o outro a imitar o complicado canto da ave originária da amazônia, única na região, sua mina do olho, premiando-o com duas cervejas e um maço de cigarros se o mesmo lograsse tal proeza. Agora via com raiva que o subestimara. Mas faria de tudo para trancar o cofre.
        - Zezé tava brincando, Jé. Deixe isso pra lá...
A esposa, gordona e ingrácil, de olhos pequenos e frios, veio em seu socorro. Lavava copos por trás do balcão, de onde acompanhava furiosa, a cena que se desenrolava do outro lado. O marido, enxugando as mãos suadas numa flanela que trazia ao ombro, aproveitou a deixa:
        - Era, hoommee... Eu tava de prosa com tu... Então, eu ia apostar nada com o sinhô?!...
 O malandro abanou a cabeça, negaceando. Também ele endurecera o semblante. Perdera um tempão treinando o canto do passarinho e agora que vira o efeito, o outro queria tirar o corpo fora. Mas com ele não. Aposta era aposta.
        - Não tô nem aí. Me dá o meu pra cá! - zangou-se.
O comerciante penteava a cabeça, desesperado. Duas cervejas e uma carteira de cigarros! Era o mesmo que lhe arrancar um braço. Não! Não! Não! A honra que fosse pras prifundas! Abriu a boca para replicar, mas a mulher interferiu mais uma vez:
        - Zezé, chegue aqui...
        - Espere um pouco, mulé! - deu com a mão, num gesto impaciente.
        - Venha cá agora! - ordenou a esposa, azeda da vida.
O homem deu uma guinada e encaminhou-se aos pulos para o balcão. Confabularam. Ela, mais elástica, fazia-o ver que não era bom negócio se indispor com o malandro, melhor taco da cidade e que só jogava apostado. E a cada aposta feita, 20% ficavam na casa. O bom senso mandava que se pagasse. Ralhou em surdina:
        - Babaquara! Indiota! Ainda quebro estas gaiolas tudinho!
De crista baixa, sempre penteando os cabelos com a mão, o comerciante tornou ao salão-de-bilhar, onde o malandro batia papo descontraidamente com Tonho de Cota, seu ajudante no comércio de galinhas e similares.
        - Tá, tá, tá, tá! Eu vou lhe dar o cigarro e a garrafa de guaraná, mas não agora!
O malandro piscou para o ajudante, molecote franzino, branquelo, a cara parecendo o focinho de um quati, o nariz do tamanho de uma semana, e voltou-se para o vendeiro.
         - Quallééé, seu Zezé! O nosso acerto foi duas Bramas e uma carteira de continental! Não deixo por menos e quero agora, pra nestante!  
O comerciante ficou vermelho de fúria. alimentava a ilusão de cozinhar o malandro em banho-maria. Ainda tentou um último recurso:
         - Mas, agora, Jé?... É cedo demais pra se beber celveja, home! E tá tudo quente, pegando fogo, ainda nem tive tempo de ligar a geladeira...
         - Tem nada não, pode tá virada brasa. A gente papa assim mesmo, né não, Tonho?
O ajudante ensaiou um festa, mas desistiu quando viu a cara de homicida do dono do bar, que lhe tinha um amor de vaca parida por cachorro. Não podia nem lhe ver a sombra.
         - Cai fora daqui, corno! Vai procurar a tua turma! - bramiu o comerciante, ameaçando avançar sobre o molecote.
         O malandro tomou a frente, saindo em defesa do quebra-facas:
         - Calma, seu Zezé, o Brasil é nosso... Deixe Tonhinho comigo...
         Enquanto o dono do bar dirigia-se fulo da vida para o balcão, o ajudante fez menção de escapulir mas foi detido pelo patrão, que se abancara numa mesa, reforçando o convite:
         - Sente aqui nessa cadeira, meu fio, agora nós vamos veranear as custas desse otário. - abaixou a voz.
O moleque criou coragem e sem tirar os olhos do comerciante, pegou um tamborete e foi sentar pertinho da porta, sem perder o ar espantadiço de quem sempre corre perigo. Uma vez foi parar na delegacia ao ser flagrado com uns patos surrupiados do quintal do dono do bar. E jurara de mãos postas ao delegado que não atinava como aquelas aves haviam entrado, sem que ele se desse conta, no saco cheio  que carregava nas costas.
         - Traga dois copos, seu Zezé! - gritou o malandro - Meu amigo Tonho de Cota também vai lamber da água que passarinho não bebe. Ah! Ah! Ah! Ah!
O homem levou certo tempo para retornar, mas chegou, atirou com força o maço de cigarros sobre a mesa, e serviu a bebida de lado, espumando de raiva. Na gaiola, o xexéu cantava de saudades da mata. Por momentos, tivera a impressão de ter sido visitado por um companheiro.
E daquela forma procedia Jerson: inteligente, versátil, amigueiro, correto. Um bon vivant.
(continua)
         -  

O Malandro Que Virou Jegue

Jerson de Zuca de Pombo era um matreiro negociante de galinhas, passarinhos, castanhas de caju, e por aí afora. Também era um grande taco na sinuca, como diriam os entendidos. Mas o seu mister, mesmo, era imitar vozes de animais. Nisso era imbatível. Além de ornitófono espetacular, refletir o relincho de um cavalo ou o ornejo de um jumento, para ele era mais fácil do que tirar doce de criança. Malandro patacoento, por onde passasse cumprimentava alacremente um, bulia com outro, atraindo para si as atenções e simpatias dos conterrâneos.
Entre todas as ambições que tinha na vida, uma se destacava com força: montar num pau-de-arara e se atirar para São Paulo, fazer a vida na capital do dinheiro. O principal motivo pelo qual ainda não embarcara na lotação de Zé Lopes, era a falta de grana para a passagem. O comércio de galinhas, seu maior negócio, andava em baixa. Uma inoportuna praga de morrinha, doença terrível que acometia os galináceos, grassava na região.

Meteu a mão no bolso da calça e sacou uns quebrados que lograra adquirir a duras penas de um grupo de ciganos, naquela manhã. Empurrara nos gajões acampados na periferia da cidade, uma capoeira de carijós contaminadas, verdadeira proeza. Contou o dinheiro. Não era muito, mas dava pra fazer uma fezinha no bilhar. Rumou para lá.
O bar de Zezé Sanfoneiro era ao mesmo tempo o clube de recreação, a bolsa de valores e a igreja da população masculina da Natuba. Centro nervoso da cidadezinha, para ali todos convergiam. Nos carnavais ou quando o fino da sinuca disputava homéricas partidas, o local ficava apinhado de gente. Fora isso, a frequência era de regular para boa. No seu interior, além de um sem-número de pássaros engaiolados, duas preciosidades: uma geladeira a gás e um snooker grande, de sete bolas.
     - Qui disgraceira, hein cumpade Jé! Antonho Cruz sangrou a mulé com onze facadas! Ô coração da serpente! Coitadinha da pobre!...
O homem parou por um momento de limpar a gaiola de um sofrê e juntou ao comentário um muxoxo de contristamento. Era moreno, forte, o nariz achatado cheio de sulcos e passava frequentemente a mão nos cabelos crespos, como a penteá-los. Era o dono do bar, sanfoneiro aposentado com certo cartaz na região.
      - É, seu Zezé, foi uma barbaridade... - retrucou o malandro, ao pé do snooker.
Referiam-se a um crime ocorrido por aqueles dias. Um sergipano nanico que desposara uma filha do lugar, sem motivo aparente, a assassinara com golpes de peixeira numa ferocidade sem par. Preso em flagrante, alcoolizado, encontrava-se recolhido ao xadrez, pertinho dali. A comunidade ainda estava sob estado de choque.    
      - O sinhô acha qui esse peste vai ser solto? Dize que a famía dele tem posse, vem com dois adevogados... - tornou o vendeiro.
Seu interlocutor, encaçapando bolas, aguardando parceiros, invés de replicar, mexeu sutilmente os lábios e emitiu sonoro gorjeio. Um japim-de-costa-vermelha dentro de um gaiolão pendendo do teto de tábuas, entretido em devorar um maxixe, largou da verdura e abriu um canto relutante, procurando localizar o "companheiro". O malandro devolveu-lhe um chilreio com todas as notas. Os outros passarinhos, que transformavam o bar num bosque, emudeceram. Daí em diante travou-se um desafio entre homem e pássaro. Afinal, o comerciante percebeu a contenda.
       - Óia, óia! Ôxe, é tu mermo, cumpade Jè?! - admirou-se, enquanto pendurava a gaiola do sofrê.
       - Ah! Ah! Ah! Ah!
       - Óia, apois não tá arremedando dereitinho o canto do xexéu? O sinhô é o cão mermo, cumpade Jé! - e passava vigorosamente a mão nos cabelos, com um ar de espanto.
       - Ganhei o pacáu, seu Zezé! Passe o meu prêmio pra cá! Ah! Ah! Ah! Ah!
O comerciante trocou o ar de espanto por uma cara de contrariedade, ao ouvir a frase dita entre galhofeira e expectante.
       - Peraê, seu moço. Num é assim como o sinhô tá pensando não...
A voz endurecera e a afabilidade desmanchou-se como por encanto.
       - Oxente, não é o quê?!... E a sua palavra?... - falou o malandro, esmorecendo o riso.
  

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Ecologia: eu sou o bem eu sou o mal.

Antes de mais nada, caros internautas, eu sou, melhor dizendo, eu era um tecnofóbico. Sempre me supus na vanguarda dos costumes (ou do etos), mas vi, confesso, (também considerem os meus 56 anos de idade: rádio de pilhas, iêiêiê, tv em preto-e-branco, copa do méxico, ditadura, ACM, Sarney... (este Sarney não larga o osso, hein? Vamos promover uma passeata virtual contra esse cabra?), bom, eu estava falando que me considerava avançado, detentor dos destinos da minha contemporaneidade, mas hoje confesso: como é que eu pude viver esse tempo todo sem me conectar? Vênia...
Isso posto, vamos ao que me propus. Eu sou passarinheiro, crio passarinhos em gaiolas, a ornitofonia pra mim é motivo de desestress muito forte. Abaixa a minha ira de um monte de coisas. Eu sei que essa eco-prática é abominável, mas em contrapartida, não lucro nada com isso. E mantenho o meu quintal (quintal: extensão de uma casa térrea, assim como o porta-malas de um automóvel. Vale pra quem nasceu e vive em apartamento) cheio de árvores, que fornecem alimentos para uma gama de criaturas (bem-te-vis, sanhaços, vim-vins, rolinhas, garrincheiros, ratos, lagartixas, lesmas, formigas, besouros, aranhas, e inseto de todo tipo). Pois bem, o motivo desse texto  é proclamar que, fazendo jus ao título, um casal de rolinhas-brancas, aves ariscas e/ou pudicas, posto que nidificam sempre em matas fechadas, aninharam-se num pé de uva do meu pomar. Já tem dois ovinhos, eu vi hoje.   

Volátil

VOLÁTIL
(da signa da vida)

Já fui gás
depois líquido borbulhante
no mar, trânsito
na terra, ambulante.
Hoje, porém,
nem verbo
nem sapiens
nem tecno
nem lipídio.
Sou mesmo é fugaz
volatilizante...


domingo, 8 de novembro de 2009

O circo (cont...)

(...) E o cortejo ia aumentando, recrudescendo a gritaria. De todos os lados, como se atraidos por irresistível força, bandos de meninos apareciam, entravam na folia. Uns mais espertos já vinham com as caras marcadas de carvão e óleo de comida, e misturavam-se solertes à turba. Inútil artifício. De início o palhaço contava e anotava o número inicial de "gritadores", termo usado para nominar os componentes da barulhenta comitiva. E assim, vasculhadas todas as ruas, escarafunchados todos os becos, já noite fechada, o palhaço depunha as pernas-de-pau e liberava a molecada, que se tornava íntima do pessoal do circo. Alguns mais desinibidos até faziam uma pontinha nos dramas, para gáudio da população.

Durante a permanência das companhias no lugar, eu deixava de lado todas as coisas, tudo o mais perdia a importância. Ficava fascinado por aquele mundo de fantasias, em que de dia os artistas eram gente comum, comiam, bebiam, brigavam entre si, fediam a suor. Porem, de noite, quando se acendiam as luzes do picadeiro, transmutavam-se em outros seres. Risonhos, destros, bem-falantes, cheios de cores. Donde vinha aquela mágica?

Fazia já umas três semanas desde que o circo chegara, mudando totalmente a rotina do lugar. Toda noite casa cheia, o galinheiro apinhado, as cadeiras lotadas pelas famílias mais abastadas, e pelos familiares, compadres, amigos, agregados e aparentados das autoridades policiais (ônus pago por uma espécie de proteção).  E as pessoas a cortejar os artistas, querendo saber detalhes de suas vidas, convidando-os para rega-bofes em suas casas, uma viúva-de-carneiro, uma galinha caipira ao molho-pardo, um tatu na pimenta, tratando-os como seres de outro planeta. Até os mata-cachorros (a classe mais baixa do circo) posavam de gostosos, recebendo atenções que não se dispensaria a uns quaisquer. Seria mais um circo que passava pela cidade, não fosse um fato ocorrido naquela tarde de verão quente. Um formidável pé-de-vento entrou picadeiro a dentro e arrasou tudo. Derrubou o mastro, reduziu a cobertura a trapos, pôs parte do galinheiro ao chão, e esbagaçou as barracas de lona adjacentes, as quais serviam de casa ao pessoal da companhia. Um pandemônio.
Aos gritos, corremos para lá. Foi a maior festa ver o circo desfigurado, os artistas descabelados, inertes, vagando feitos zumbis pelo meio dos destroços. Mas a minha alegria durou pouco tempo. Sentado no palco empoeirado, o palhaço Pingotinha chorava copiosamente, a cara negra, pintada pela metade, toda borrada de tinta. Fora colhido pelo vendaval no momento em que se preparava para sair pela cidade arregimentando a população, à frente da molecada, na sua ronda diária. Tomei um choque. Nunca vira um palhaço chorando. Comovido, aproximei-me devagarinho e fiquei ao lado, solidário, ouvindo-o repetir baixinho:
     - Tudo perdido, meu Deus... Tudo perdido...
De repente compreendi a extensão da coisa. Aquilo era a casa deles. Ali eles moravam, comiam, amavam, trabahavam, ganhavam o pão-de-cada-dia. Em torno, nas barracas despeladas, panelas com comidas jaziam destampadas como vísceras expostas. Roupas íntimas sujas de areia esparramavam-se aqui e ali ao lado de colchões encardidos e de camas velhas. E a meninada pisando por cima de tudo, correndo, uivando, remexendo as coisas, numa azáfama venal. Comparei-os a um bando de peles-vermelhas a pilhar e a saquear colonos, como nos filmes de faroeste. Senti vergonha. Mas, a mesma disposição que tínhamos para a vilania, também tínhamos para o altruísmo.
Passado o momento de torpor, o pessoal do circo arregaçou as mangas. Capitaneando um batalhão de meninos ruidosos, o palhaço Pingotinha coordenou o resgate da velha lona, cujos retalhos foram encontrados até fora da cidade. Durou a jornada, uma tarde e um dia inteiros. A cada pedaço reavido, entrávamos afobados no picadeiro, como se portássemos valioso troféu. E a nossa colaboração foi além, ajudando a armar e a costurar a enorme coberta, quase de todo imprestável, que se assemelhava a um roto e descomunal quebra-cabeças. A operação levou um bom tempo, durante o qual me senti fazendo parte do circo. Fugia de casa cedinho, ignorava a escola, passava o dia todo no circo assessorando a troupe. No dia em que a cobertura foi alçada, fizemos uma tremenda festa. Nossa maior satisfação foi ter notado no semblante do palhaço Pingotinha, a volta da alegria. Como recompensa pela nossa colaboração, ganhamos entrada franca pelo resto da temporada.

Fazia parte da troupe uma menina entrando na adolescência, filha dos donos do circo. De cabelos oxigenados, magra, espigadona mas harmoniosa, com ares de mocinha e pose de vedete, era a alma da companhia. Quando pisava o palco, colorida, de mini-saia e longas botinas, dublando a cantora Vanderléa, magnetizava a platéia. Não sei quando nem como começou a coisa, mas de repente estava caidinho por ela. Eu ainda nem completara meus treze anos de idade, nem sabia direito o que era namoro, vivia metido com badogues e bolas de gude. O fato é que deixei de "gritar palhaço", abdiquei dos suspensórios e das calças-curtas, e me vi envergando roupas de gente grande, a meia-cabeleira recendendo a perfume de óleo glostora. Procurava sempre gravitar em torno da pequena estrela, o coração sambando no peito, impondo inflexões adultas na voz infirme, que ela parecia nem dar bola a essa performance.
Talvez por havermos privado da mesma intimidade por alguns dias, ela às vezes punha uns promitentes olhos esverdeados em mim. Mas era uma coisa solta, cortava os assuntos pelo meio, tocava a falar aleatoriamente, isso assim-assim, aquilo assim-assado, fazendo-me sentir como um peixe fora dágua. Até que uma noite me aprontou uma surpresa. Por estar sempre por ali, um dia fui convidado a participar de um drama, junto com outros meninos, a renda do espetáculo inédito meada em cinquenta por cento em favor de um ginásio que se construía no lugar. Com o repertório escasseando, o circo usava daquele expediente para fugir da baixa frequência. Após uma tarde de ensaios, com o circo abarrotado de gente, levamos ao palco uma adaptação insípida de um conto dos irmãos Grimm, A Bela Adormecida. Não me deixaram ser o herói, por ser um pouquinho menor do que a menina, que fazia o papel principal. Meteram-me uma roupa velha no corpo magro, abriram rugas em minha cara imberbe, e transformaram-me num ancião que deveria mostrar ao Prìncipe o castelo onde a Princesa dormia à espera de ser acordada com um beijo. Fiquei arrasado. Depois da apresentação, em que os companheiros zombaram da minha triste figura, contendo o pranto a muito custo, fui me esconder do lado de fora do picadeiro, perto das barracas, à espera de ter a maquiagem removida, sentindo-me ridículo, odiando a infeliz idéia de querer ser de circo.
Então, ainda trajada de princesa, a garota apareceu-me. E de súbito, inopinadamente, me espremeu de encontro à  lona da barraca, e me sapecou um bejo na boca, esfregando a língua molhada em meus dentes. Depois saiu correndo e rindo da minha reação. Apesar de feliz, não consegui reprimir uma sensação invasiva, engolindo com certo receio a saliva quente que ela deixara depositada na minha boca. Então era assim que os namorados agiam!... E quem não gostava de escovar os dentes, como meus companheiros de caçadas, que tratavam as cáries e as dores-de-dente com o sumo ácido e anestésico de uma planta chamada cacetinho-do-cão, que desintegrava um dente em questão de segundos, como era que ficava? Decidi dai pra frente caprichar mais nas escovadelas, e não apenas fingir que escovava e engolia o refrescante dentifricio. Passei a noite preocupado com a minha higiene bucal.

Os companheiros de aventuras estranhavam o comportamento que passei a  manifestar, depois daquela noite. Fugia das brincadeiras, deixei de caçar passarinhos, ficava pelos cantos, arredio, divagante, com ares de homenzinho. O fato era que pegara paixão forte. Uma paixão danada. E fazia castelos de sonhos, compondo com a menina, uma dupla de artistas. Ora éramos mágico e assistente, ora dois destemidos trapezistas, ora uma dupla de cantores, outro hora dois valentes domadores, quebrando a castanha de leões, tigres, e ferozes onças pintadas. Só nunca conseguimos ser palhaços. Não havia jeito de nos imaginarmos  com aquelas roupas folgadonas e bolinhas vermelhas no nariz, fazendo patacoadas. Mas até pelo globo-da-morte nos aventuramos, eu numa lambreta, ela noutra, desafiando o perigo. Mas não naquele cirquinho. Num circo rico, famoso, enorme, os mastros raspando o céu.

Aprendi a beijar. Tanto ela me ensinava, que agora me saía bem até com chicletes na boca. Os encontros davam-se sempre às escondidas, nas cercanias do circo, geralmente pelo anoitecer, ou durante os espetáculos. Eu pouco ligava pelo que se desenrolava no picadeiro. Ficava vagando sem esquentar lugar, esperando o momento em que ela desaparecesse por trás das cortinas, depois do seu número. Escapulia discretamente, ia encontrá-la me esperando ao lado da barraca dos pais.                                           Naquele dia o palhaço Pingotinha não saíra pelas ruas, chamando o povo. Era o sinal mais forte de que não haveria espetáculo. A trovoada provinda do norte, com a ira de todos os deuses, fustigara a região. E eu, que tanto apreciava aqueles fenômenos, dessa vez quase amaldiçoei a chuva. Que idéia aquela de São Pedro abrir as torneiras justamente quando havia um circo na cidade! A cada minuto que passava, olhava pro céu, vasculhando o horizonte em busca de uma abertura nas nuvens, mas o tempão engoliu a tarde e as estrelas não vieram. Resoluto, atufei os bolsos de chicletes-bola e saí pela noite raivosa debaixo dágua. Aventura temerária, já que tinha um medo pavoroso de topar com uma visagem. Mas estava enrabichado e as mulas-sem-cabeça e os lobisomens agora não passavam de pálidos espectros.

Na entrada do circo quase às escuras, fiquei de prosa com um mata-cachorro, sondando a área. A maioria dos artistas estava pelo mundo. Uns atendendo convite para jantar; outros, para cair na pândega pelos botecos ou cabarés. Fiquei ali como quem nao queria nada, pisando, jogando conversa fora, até que criei coragem e perguntei pela menina. Fui informado de que ela se encontrava recolhida. O papo foi amiudando, amiudando, o desassunto teve lugar, e o lacônismo empurrou-me para o interior do circo cheio de pingueiras e envolto na penumbra. Pronto, estava ali. E agora? Geralmente era ela quem conduzia o embeleco, marcava os encontros, sempre dava um jeito de ficarmos à sós. Estava quase arrependido de ter tomado aquela irrefletida atitude, mas o meu peito juvenil queimava de ansiedade e eu fui atravessando o picadeiro em direção aos fundos do circo sem sentir. Quando me dei conta estava diante da barraca. De seu interior iluminado, um rádio de pilhas matraqueava a Voz do Brasil. Devo ter feito algum barulho, pois a silheuta da garota se recortou através da lona, caminhando na direção da porta cortinada.
     - Oi, é você...
Não havia surpresa em sua voz, apenas um misto de ironia e divertimento. Era eu sim, mas o que devia falar? Enfiei as mãos nos bolsos da calça topeka e fiquei parado, mudo, a cara de babaquara, esperando que ela agisse, como das outras vezes.
     - Entre pra cá. Venha enxugar os cabelos...
Eu? Entrar no quarto de uma mulher? Nem pensar! Por que ela não saía e não me carregava pros fundos da barraca? Não arredei do lugar. Ao me ver assim parecedo uma estátua, ela me puxou por um braço, ordenando.
     - Venha!...
O jeito foi obedecê-la, esquadrinhando os quatro cantos do lugar, em busca dos pais. Suspirei aliviado ao constatar que ela estava sozinha. Recebi uma toalha enxombrada e passei-a nos cabelos ensopados, ante o ar divertido da garota, que começou a falar desenvoltamente, abafando a voz do rádio com descargas estáticas, refletindo  o humor dos céus. Tempo escorrendo, ela foi diminuindo a eloquência e estreitando a distância entre a gente. Com pouco, estávamos colados, num embolo danado. De repente, os familiares apareceram, rindo e falando alto. Aflito, com medo de ser capado pelo pai, minha primeira reaçao foi sair em disparada. Ao notar o meu dessassossego, ela me segurou pela mão e falou despreocupadamente:
      - Nada, besta, eles já sabem...
E terminei por dividir com ela, um pedaço do bolo de aipim que os pais trouxeram como sobras do jantar de que haviam participado na vizinhança.

Eu queria deter o tempo. Fazer com que tudo parasse e aquele circo permanecesse ali pelo resto da vida. Mas o tempo foi correndo, a bilheteria mixando, os artistas se desmotivando. E um dia, esgotado o minguado repertório, cansada a população das manjadas repetições, a lona amanheceu arriada. Encostou um caminhão, encheu-se a carroçaria de breguessos, e quase como se fugindo envergonhado, o circo lá se foi, levando com ele aquela pequena estrela. Eu cá fiquei, com um enorme vazio na alma...
                
(Próxima postagem: O malandro que virou Jegue ou O polonês tartamudo e a dama papa-donzelo. (?)

sábado, 7 de novembro de 2009

O circo (continuação...)

(...) No dia seguinte inventei de "gritar palhaço", o que garantiria meu ingresso para o espetáculo da noite. Com dois amigos e outros moleques, tive a minha testa marcada em cruz com uma tinta preta e saimos pelas ruas da cidade respondendo aos ditérios do palhaço trepado numas pernas-de-pau enormes. O palhaço ia na frente bem do dele com aquelas passadonas compridas e nós íamos atrás a meio chouto na maior zoeira. Parávamos num local de maior movimento e lá viam os slogans para atrair a atenção das pessoas:

                                                              "Hoje tem espetáculo?" (o palhaço)
                                                              "Tem sim sinhôôô!" (a molecada)
                                                              "Às oito horas da noite?"
                                                              "Tem sim sinhôôô!"
                                                              "Hoje tem marmelada?"
                                                              "Tem sim sinhôôô!"
                                                              "Hoje tem goiabada?"
                                                              "Tem sim sinhôôô!"
                                                              "Hoje tem palhaçada?"
                                                              "Tem sim sinhôôô!"
                                                              "E o palhaço, o que ééé?"
                                                              "É ladrão de muiééé!"
                                                              "E Pingotinha o que ééé?"
                                                              "É ladrão de muiééé!"
                                                              "E arrocha negradaaa!"
                                                              "UU!..."
                                                              "Mais um pouquinhooo!"
                                                              "UUU!..."
                                                              "Mais um bocadinhooo!"
                                                              "UUUUUU!..."

                                                              (Retomando a caminhada):

                                                              "Ô lêlê dona Chicaaa!"   
                                                              "Arremexe a canjiiiccaaa!"
                                                              "Ô lêlê dona Chicaaa!"
                                                              "Arremexe a canjiiiccaaa!"
                                                              "Ô lêlê dona Chicaaa!"
                                                              "Arremexe a canjiiiccaaaa!"

                                                              (Acelerando o passo):

                                                              "Pompeu, Pompeu!"
                                                              "Sua mãe morreeeuuu!"
                                                              "Pompeu, Pompeu!"
                                                              "Sua mãe morreeeuuu!"
                                                              "Pompeu, Pompeu!"
                                                              "Sua mãe morreeeuuu!"

                                                              (Quase correndo):

                                                              "Balanceiro da usinaaa!"...
                                                              "Eu não meu beeemmm!"
                                                              "Tá danado pra roubaaarr!"...
                                                              "Eu não meu beeemmm!"
                                                              "Tanto rouba na balançaaa!"...
                                                              "Eu não meu beeemmm!"
                                                              "Quanto rouba no olhaaarrr!"...
                                                              "Eu não meu beeemmm!"

                                                              (À toda velocidade):

                                                              "Eu vou ali e volto jááá!"
                                                              "Vou buscar maracujááá!"
                                                              "Eu vou ali e volto jááá!"
                                                              "Vou buscar maracujááá!"
                                                               "Mas eu vou ali e volto jááá!"
                                                               "Vou buscar maracujááá!"
                                                               "E arrocha negradaaa!"
                                                               "UUU!"
                                                               "Mais um tiquiiinhooo!"
                                                               "UUUUU!"
                                                               "Mais um bocadiiinhooo!"
                                                               "UUUUUUUU!"

E nessa batida, corríamos os quatro cantos da cidadezinha.À nossa passagem, as pessoas esqueciam seus quefazeres, saíam na frente das casas, apontando, rindo, mangando, dizendo pilhérias.Os transeuntes paravam momentaneamente, abraim alas, apreciavam o rancho, comentavam sobre os pontos do espetáculo anterior, gritavam dichotes ao palhaço, ficavam para trás trocando lérias...
(continua...)