terça-feira, 10 de novembro de 2009

O Malandro Que Virou Jegue

Jerson de Zuca de Pombo era um matreiro negociante de galinhas, passarinhos, castanhas de caju, e por aí afora. Também era um grande taco na sinuca, como diriam os entendidos. Mas o seu mister, mesmo, era imitar vozes de animais. Nisso era imbatível. Além de ornitófono espetacular, refletir o relincho de um cavalo ou o ornejo de um jumento, para ele era mais fácil do que tirar doce de criança. Malandro patacoento, por onde passasse cumprimentava alacremente um, bulia com outro, atraindo para si as atenções e simpatias dos conterrâneos.
Entre todas as ambições que tinha na vida, uma se destacava com força: montar num pau-de-arara e se atirar para São Paulo, fazer a vida na capital do dinheiro. O principal motivo pelo qual ainda não embarcara na lotação de Zé Lopes, era a falta de grana para a passagem. O comércio de galinhas, seu maior negócio, andava em baixa. Uma inoportuna praga de morrinha, doença terrível que acometia os galináceos, grassava na região.

Meteu a mão no bolso da calça e sacou uns quebrados que lograra adquirir a duras penas de um grupo de ciganos, naquela manhã. Empurrara nos gajões acampados na periferia da cidade, uma capoeira de carijós contaminadas, verdadeira proeza. Contou o dinheiro. Não era muito, mas dava pra fazer uma fezinha no bilhar. Rumou para lá.
O bar de Zezé Sanfoneiro era ao mesmo tempo o clube de recreação, a bolsa de valores e a igreja da população masculina da Natuba. Centro nervoso da cidadezinha, para ali todos convergiam. Nos carnavais ou quando o fino da sinuca disputava homéricas partidas, o local ficava apinhado de gente. Fora isso, a frequência era de regular para boa. No seu interior, além de um sem-número de pássaros engaiolados, duas preciosidades: uma geladeira a gás e um snooker grande, de sete bolas.
     - Qui disgraceira, hein cumpade Jé! Antonho Cruz sangrou a mulé com onze facadas! Ô coração da serpente! Coitadinha da pobre!...
O homem parou por um momento de limpar a gaiola de um sofrê e juntou ao comentário um muxoxo de contristamento. Era moreno, forte, o nariz achatado cheio de sulcos e passava frequentemente a mão nos cabelos crespos, como a penteá-los. Era o dono do bar, sanfoneiro aposentado com certo cartaz na região.
      - É, seu Zezé, foi uma barbaridade... - retrucou o malandro, ao pé do snooker.
Referiam-se a um crime ocorrido por aqueles dias. Um sergipano nanico que desposara uma filha do lugar, sem motivo aparente, a assassinara com golpes de peixeira numa ferocidade sem par. Preso em flagrante, alcoolizado, encontrava-se recolhido ao xadrez, pertinho dali. A comunidade ainda estava sob estado de choque.    
      - O sinhô acha qui esse peste vai ser solto? Dize que a famía dele tem posse, vem com dois adevogados... - tornou o vendeiro.
Seu interlocutor, encaçapando bolas, aguardando parceiros, invés de replicar, mexeu sutilmente os lábios e emitiu sonoro gorjeio. Um japim-de-costa-vermelha dentro de um gaiolão pendendo do teto de tábuas, entretido em devorar um maxixe, largou da verdura e abriu um canto relutante, procurando localizar o "companheiro". O malandro devolveu-lhe um chilreio com todas as notas. Os outros passarinhos, que transformavam o bar num bosque, emudeceram. Daí em diante travou-se um desafio entre homem e pássaro. Afinal, o comerciante percebeu a contenda.
       - Óia, óia! Ôxe, é tu mermo, cumpade Jè?! - admirou-se, enquanto pendurava a gaiola do sofrê.
       - Ah! Ah! Ah! Ah!
       - Óia, apois não tá arremedando dereitinho o canto do xexéu? O sinhô é o cão mermo, cumpade Jé! - e passava vigorosamente a mão nos cabelos, com um ar de espanto.
       - Ganhei o pacáu, seu Zezé! Passe o meu prêmio pra cá! Ah! Ah! Ah! Ah!
O comerciante trocou o ar de espanto por uma cara de contrariedade, ao ouvir a frase dita entre galhofeira e expectante.
       - Peraê, seu moço. Num é assim como o sinhô tá pensando não...
A voz endurecera e a afabilidade desmanchou-se como por encanto.
       - Oxente, não é o quê?!... E a sua palavra?... - falou o malandro, esmorecendo o riso.
  

Um comentário: