(...) A cidade iniciava seus primeiros movimentos. Aos poucos as pessoas iam aparecendo, algumas ainda bocejando, em trajos de dormir. Outras, mais ativas, já cumpriam tarefas. E as ruas se enchiam de leiteiros, entregadores de pão, escolares, mulheres empunhando vassouras, verborragicamente varrendo calçadas, lavadeiras com trouxas nas cabeças descendo para os riachos, homens dirigindo-se para suas roças, alguns abrindo vendas, dando prosas, ou simplesmente passeando a manhã cheia de sol. Tonho Baga cochilava de cabresto na mão, recostado num banco do jardim. O malandro achegou-se sorridente e sentou ao lado, puxando conversa:
- Parece que perdeu a noite, Tonhinho? - sacudiu o homenzinho pelo ombro.
O vigia ergueu a cara mal-dormida e abriu um olho, levando a mão à frente para livrar-se da claridade molesta do sol. Resmungou sem muita vontade:
- Tô drumindo nada... É só uma páia...
- Quer um cigarrinho?
- Num é mal não...
E estendeu a mão para receber um astória, acendendo-o com o fósforo que tambem lhe era ofertado. Deu duas tragadas fortes, animando o semblante caido.
- O que foi que houve com Bugaju que tá ali enfezado? - futucou o malandro.
O vigia abriu bem os olhos e esboçou um ar de contrariedade.
- Home, tu num sabe de nada, Jé. Um jumento encapetado quase dóida nóis essa noite. Inté seu Jerome quebrou a viola de raiva.
- Ah! Ah! Ah! Ah!
- Num ria não qui o causo é sério. O disgramado estragou um bocado de pranta. Num sei o qui vai ser da gente quando seu Juquinha der com o dano. Óie quanto capim o bexiguento arrancô! - e apontou para uma área considerável de grama revolvida.
- Ah! Ah! Ah! Ah! Até logo, Tonhinho! Eu vou ali no bilhar, fazer uma fezinha. Tome, fique aí com mais um cigarrinho. - passou-lhe outro cigarro e se foi rindo alto.
Os aguadeiros iam e vinham, azafamados, enchendo dágua os tonéis distribuídos estratégicamente ao longo do jardim retangular, regado a baldes e panelas por um verdadeiro batalhão de funcionários sob o comando de Dudu Pedreiro, que se desdobrava para recuperar mudas de árvores pisoteadas e reconstituir tufos de grama.
O prefeito Juca Ferreira, de chapéu de palhinha, gravata borboleta e terno impecavelmente branco de diagonal, entrou em seu gabinete cuspindo fogo e arrotando brasa. Verificara pessoalmente o estrago causado pelo estranho asno que subia degraus e nunca se deixava apanhar, e que os vigias, para fugirem ao uma possivel represália, alardeavam se tratar de um jegue encantado.
- Dupla de energúmenos! Não servem para nada! Agora me saem com essa história de visagem! O diabo que os carregue pros infernos!
Sentou-se à mesona, abriu um gavetão com tranca de pau, mergulhou a mão nervosa e voltou com uma garrafa de conhaque macieira, seu preferido, bebendo um generoso trago pelo gargalo. Devolveu a bebida ao local de origem, trancou a gaveta, e chamou um secretário:
- Adamastor!
O grito impaciente ecoou pelos corredores desertos da prefeitura.
- Adamastor!
Tornou o homem, os olhos vermelhos chispando. "Por aonde andará este mandrião"? Empregara o funcionário, parente remediado, namorador e boêmio, apenas por insistência das mulheres da família, que eram muitas e influentes, mas até já se arrependera. Sem demonstrar nenhuma pressa, um galalau bem-apessoado, mal saido da adolescência, penetrou no gabinete sem se anunciar.
- Pronto, seu Juquinha, estou à vossa disposição... - falou, emprestando um tom humilde à voz capciosa.
O prefeito enxugava a calva suada com um lenço e o mirou furibundo.
- Adamastor eu vou lhe dar uma ordem e espero que essa seja rigorosamente cumprida! A partir de agora você fica diretamente responsável pela administração do jardim! Ponha mais aguadeiros, contrate mais gente para regar as plantas, prenda jegues, prenda também os donos se necessário, faça o diabo! Mas eu quero sucesso absoluto nessa empreitada! Compreendeu bem a minha ordem?!
A par do ocorrido na noite anterior, como quase toda cidade, o secretário não pode reprimir o sarcasmo.
- Bugaju mais Tonho Baga andam espalhando por aí que foi um jumento encantado, seu Juquinha...
- E essa láia presta pra nada? São dois paus-de-bosta! Agora vá, vá cuidar de suas obrigações! - espantou o outro com um gesto nervoso.
O secretário engoliu o riso e girou nos calcanhares, dirigindo-se para a saida. Antes de vará-la, porém, ainda ouviu:
- Mesmo com a porta encostada, da próxima vez não esqueça de se anunciar! Ouviu bem?
- Mesmo com a porta encostada, da próxima vez não esqueça de se anunciar! Ouviu bem?
- Pode deixar, seu Juquinha. Não me esquecerei...
Fechou a porta atrás de si e deu uma vigorosa banana na direção do político, que voltara às suas lucubrações. Aquele jardim era uma questão de honra, quer dizer, de votos. Era vital que estivesse a contento até o final do ano, quando serviria de palco para a festa da padroeira da cidade, Nossa Senhora da Conceição, época em que o lugar era invadido por romeiros do interior do município, pela população local e pelo povo das cidades circunvizinhas. O padre Galvão, promotor das santas-missões, naquela manhã lhe cobrara medidas mais enérgicas quanto à execução do valioso projeto. A já famosa dobradinha igreja-obras "faraônicas" nunca negava fogo.
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