(...) - Ora mané palavra! Palavra o vento leva! - tornou o homem, o cenho franzido.
Estava na iminência de perder capital e isso para ele não tinha nenhuma graça. Se hoje era o que era, se aposentara a sanfona, devia e muito ao fato de ver sempre um tostão como um milhão. Infeliz idéia tivera, agora o sabia, de pegar a aposta com o malandro. Quando adquiriu o xexéu, desafiara o outro a imitar o complicado canto da ave originária da amazônia, única na região, sua mina do olho, premiando-o com duas cervejas e um maço de cigarros se o mesmo lograsse tal proeza. Agora via com raiva que o subestimara. Mas faria de tudo para trancar o cofre.
- Zezé tava brincando, Jé. Deixe isso pra lá...
A esposa, gordona e ingrácil, de olhos pequenos e frios, veio em seu socorro. Lavava copos por trás do balcão, de onde acompanhava furiosa, a cena que se desenrolava do outro lado. O marido, enxugando as mãos suadas numa flanela que trazia ao ombro, aproveitou a deixa:
- Era, hoommee... Eu tava de prosa com tu... Então, eu ia apostar nada com o sinhô?!...
O malandro abanou a cabeça, negaceando. Também ele endurecera o semblante. Perdera um tempão treinando o canto do passarinho e agora que vira o efeito, o outro queria tirar o corpo fora. Mas com ele não. Aposta era aposta.
- Não tô nem aí. Me dá o meu pra cá! - zangou-se.
O comerciante penteava a cabeça, desesperado. Duas cervejas e uma carteira de cigarros! Era o mesmo que lhe arrancar um braço. Não! Não! Não! A honra que fosse pras prifundas! Abriu a boca para replicar, mas a mulher interferiu mais uma vez:
- Zezé, chegue aqui...
- Espere um pouco, mulé! - deu com a mão, num gesto impaciente.
- Venha cá agora! - ordenou a esposa, azeda da vida.
O homem deu uma guinada e encaminhou-se aos pulos para o balcão. Confabularam. Ela, mais elástica, fazia-o ver que não era bom negócio se indispor com o malandro, melhor taco da cidade e que só jogava apostado. E a cada aposta feita, 20% ficavam na casa. O bom senso mandava que se pagasse. Ralhou em surdina:
- Babaquara! Indiota! Ainda quebro estas gaiolas tudinho!
De crista baixa, sempre penteando os cabelos com a mão, o comerciante tornou ao salão-de-bilhar, onde o malandro batia papo descontraidamente com Tonho de Cota, seu ajudante no comércio de galinhas e similares.
- Tá, tá, tá, tá! Eu vou lhe dar o cigarro e a garrafa de guaraná, mas não agora!
O malandro piscou para o ajudante, molecote franzino, branquelo, a cara parecendo o focinho de um quati, o nariz do tamanho de uma semana, e voltou-se para o vendeiro.
- Quallééé, seu Zezé! O nosso acerto foi duas Bramas e uma carteira de continental! Não deixo por menos e quero agora, pra nestante!
O comerciante ficou vermelho de fúria. alimentava a ilusão de cozinhar o malandro em banho-maria. Ainda tentou um último recurso:
- Mas, agora, Jé?... É cedo demais pra se beber celveja, home! E tá tudo quente, pegando fogo, ainda nem tive tempo de ligar a geladeira...
- Tem nada não, pode tá virada brasa. A gente papa assim mesmo, né não, Tonho?
O ajudante ensaiou um festa, mas desistiu quando viu a cara de homicida do dono do bar, que lhe tinha um amor de vaca parida por cachorro. Não podia nem lhe ver a sombra.
- Cai fora daqui, corno! Vai procurar a tua turma! - bramiu o comerciante, ameaçando avançar sobre o molecote.
O malandro tomou a frente, saindo em defesa do quebra-facas:
- Calma, seu Zezé, o Brasil é nosso... Deixe Tonhinho comigo...
Enquanto o dono do bar dirigia-se fulo da vida para o balcão, o ajudante fez menção de escapulir mas foi detido pelo patrão, que se abancara numa mesa, reforçando o convite:
- Sente aqui nessa cadeira, meu fio, agora nós vamos veranear as custas desse otário. - abaixou a voz.
O moleque criou coragem e sem tirar os olhos do comerciante, pegou um tamborete e foi sentar pertinho da porta, sem perder o ar espantadiço de quem sempre corre perigo. Uma vez foi parar na delegacia ao ser flagrado com uns patos surrupiados do quintal do dono do bar. E jurara de mãos postas ao delegado que não atinava como aquelas aves haviam entrado, sem que ele se desse conta, no saco cheio que carregava nas costas.
- Traga dois copos, seu Zezé! - gritou o malandro - Meu amigo Tonho de Cota também vai lamber da água que passarinho não bebe. Ah! Ah! Ah! Ah!
O homem levou certo tempo para retornar, mas chegou, atirou com força o maço de cigarros sobre a mesa, e serviu a bebida de lado, espumando de raiva. Na gaiola, o xexéu cantava de saudades da mata. Por momentos, tivera a impressão de ter sido visitado por um companheiro.
E daquela forma procedia Jerson: inteligente, versátil, amigueiro, correto. Um bon vivant.
(continua)
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