- Óie adonde o disgramado cagô... - Tonho Baga, a voz fraca.
- Ah, se eu pego esse num-sei-o-que-diga! - o companheiro.
"OOOONNNN!...IS-OONN!...IS-OONN!...IS-OONN!...IISS!...IISS!...IISS!..."
Outro zurro escandaloso cortou a frase do violeiro, à esquerda de ambos.
- Danou-se! Tá na prefeitura! - tornou o homem.
Avançaram pela pista encascalhada, o violeiro adiante, a viola no saco pulando que nem pipoca na panela quente, o outro mais atrás, a respiração em pane pelo esforço inesperado. Nada! Tonho Baga arriou o corpo mirrado nos degraus do principal edifício da cidade, e sentiu a mão mergulhar num negócio mole.
- Êta gota serena! Isso é bosta! - xingou.
O outro vigia, alucinado de raiva, tirou a viola das costas e fez menção de espatifá-la na calçada.
- Ô jumento excumungado! Ô cascabuio da disgraça!... Mas eu te pego, disinfiliz! - rasgou a garganta feito um louco.
Algumas casas acordaram. Choro de crianças, esporros, acalantos, pigarreios, homens resmungando. Da casa do delegado Ziconias, a dois passos dali, uma janela foi aberta. A chama tremulante de um fifó espantou a escuridão, alumiando a fachada do Armarinho de Dona Alzira, o único do lugar. Empunhando a candeia, a autoridade assomou a cabeça branca.
- Bugaju, que diabo é isso? - reconhecera a voz do violeiro.
- Num é nada não, seu Zicó! É só o diacho dum jegue!...
- Ôxe, pensei que o mundo tava sacabando...
Outro zurro indecente, do centro do jardim, interrompeu o diálogo.
"OOOONNNN!...IISS-OONN!...IS-OONN!...IS-OONN!...IISS!...IISS!...IISS!..."
- Óia lá! Tá no coreto! Agora a gente pega esse disgraçado! Alevanta, Tonho! - alvoroçou-se o violeiro.
O companheiro, quase sem fala, balbuciou:
-Vá na frente, seu Jerome...
- Vambora, tísico! Que é qui faiz do qui come?
O delegado soltou um riso de troça e fechou a janela, ficando novamente a rua às escuras. O violeiro deixou o auxiliar fazendo enfincapé para se erguer e rumou rapidamente para o local do zurro. "Jegue do cão! Jegue do cão!" Porém, mais uma vez, nem sinal do jumento. Subiu os nove degraus do coreto na intenção de guardar a viola junto a outros pertences, uma moringa e um paletó surrado. Infeliz decisão. Enfincou outra vez as alpercatas puídas numa enorme ruma de fezes caprichosamente postas no centro do piso de cerâmica vermelha. Foi a gota dágua. Picou o instrumento no chão, arrebentando-o em várias partes. E falava, mordido de ira:
- Ô jegue do cabrunco pra cagá!... Cuma será que este levunco botou cá em riba?
Depois do último feito, tão misteriosamente quanto surgira, o jumento desapareceu do cenário. E a praça mergulhou no silêncio.
Manhãzinha seguinte, antes mesmo da quebra do jejum, Jerome Bugaju martelava a cabeça tentando consertar a viola. Tão empenhado estava, na frente de sua pequena casa de adobes, que nem se deu ao incômodo de erguer a vista para responder ao cumprimento de seu sociável vizinho Jerson de Zuca de Pombo. Vizinhos de paredes-meias.
- Ô, muito bom-dia, capitão Jerome!
- Grr!...
- Oxente, quebrou a viola?
- Grrrr!...
Rosnou o homem, soltando fumaça pelo nariz de águia, um chapéuzinho de couro na cabeça miúda. E continuou concentrado na difícil tarefa de reparar o estrago em seu caríssimo instrumento. O malandro seguiu caminho assobiando alegremente um canto de passo-preto. Dobrou uma quina e foi sair na praça da Igreja matriz.
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