(...) No dia seguinte inventei de "gritar palhaço", o que garantiria meu ingresso para o espetáculo da noite. Com dois amigos e outros moleques, tive a minha testa marcada em cruz com uma tinta preta e saimos pelas ruas da cidade respondendo aos ditérios do palhaço trepado numas pernas-de-pau enormes. O palhaço ia na frente bem do dele com aquelas passadonas compridas e nós íamos atrás a meio chouto na maior zoeira. Parávamos num local de maior movimento e lá viam os slogans para atrair a atenção das pessoas:
"Hoje tem espetáculo?" (o palhaço)
"Tem sim sinhôôô!" (a molecada)
"Às oito horas da noite?"
"Tem sim sinhôôô!"
"Hoje tem marmelada?"
"Tem sim sinhôôô!"
"Hoje tem goiabada?"
"Tem sim sinhôôô!"
"Hoje tem palhaçada?"
"Tem sim sinhôôô!"
"E o palhaço, o que ééé?"
"É ladrão de muiééé!"
"E Pingotinha o que ééé?"
"É ladrão de muiééé!"
"E arrocha negradaaa!"
"UU!..."
"Mais um pouquinhooo!"
"UUU!..."
"Mais um bocadinhooo!"
"UUUUUU!..."
(Retomando a caminhada):
"Ô lêlê dona Chicaaa!"
"Arremexe a canjiiiccaaa!"
"Ô lêlê dona Chicaaa!"
"Arremexe a canjiiiccaaa!"
"Ô lêlê dona Chicaaa!"
"Arremexe a canjiiiccaaaa!"
(Acelerando o passo):
"Pompeu, Pompeu!"
"Sua mãe morreeeuuu!"
"Pompeu, Pompeu!"
"Sua mãe morreeeuuu!"
"Pompeu, Pompeu!"
"Sua mãe morreeeuuu!"
(Quase correndo):
"Balanceiro da usinaaa!"...
"Eu não meu beeemmm!"
"Tá danado pra roubaaarr!"...
"Eu não meu beeemmm!"
"Tanto rouba na balançaaa!"...
"Eu não meu beeemmm!"
"Quanto rouba no olhaaarrr!"...
"Eu não meu beeemmm!"
(À toda velocidade):
"Eu vou ali e volto jááá!"
"Vou buscar maracujááá!"
"Eu vou ali e volto jááá!"
"Vou buscar maracujááá!"
"Mas eu vou ali e volto jááá!"
"Vou buscar maracujááá!"
"E arrocha negradaaa!"
"UUU!"
"Mais um tiquiiinhooo!"
"UUUUU!"
"Mais um bocadiiinhooo!"
"UUUUUUUU!"
E nessa batida, corríamos os quatro cantos da cidadezinha.À nossa passagem, as pessoas esqueciam seus quefazeres, saíam na frente das casas, apontando, rindo, mangando, dizendo pilhérias.Os transeuntes paravam momentaneamente, abraim alas, apreciavam o rancho, comentavam sobre os pontos do espetáculo anterior, gritavam dichotes ao palhaço, ficavam para trás trocando lérias...
(continua...)
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