" Adeus minha terra morena
Quem fica não tem opção
Quer avoar e não tem pena
Quer comer e não tem pão.
Por isso vou mimbora
Meus sonhos vou perseguir
Quem espera não faz a hora
Nem alcança o porvir
Prefiro chorar lá forao cons
Do que rir sem graça aqui."
Com esses dois versos, despediu-se Jerson, que também era poeta e ninguém sabia, de seu torrão natal. E subiu no pau-de-arara lotado, levando na matulagem, além da mala-de-couro, de um farnel sortido e de uma jaca mole, a benção dos pais e um adeus choroso da noiva Maria de Belo Barão, devidamente aliançada, uma morena beata, prendada e cadeiruda.
O caminhão começou a gemer, estralando a carroçaria, e avançou lentamente pelas ruas encascalhadas, disposto a enfrentar vinte dias de dificuldades. O dia amanhecera por inteiro, o ar parado, seco, nenhuma gotinha de orvalho nas árvores mirradas, meio ano sem uma chuva. O inverno anterior mal-mal criara uns carocinhos chochos de feijão. Milho? Nem pra remédio! Abóbora, batata, aipim?, semente jogada fora. A rigor, apenas os umbuzeiros e os juazeiros viçavam, contrastando com a terra vermelha e a arbustada ressequida. O céu era de um azul diáfano, nuvem nenhuma. A leste o sol, medonha bola de fogo, subira já mais de palmo no horizonte. Despertava a bicharada morta-viva do jejum noturno, sepultava no chão rachado a esperança dos homens. O ciclo infausto varava os séculos, tangia as décadas, empurrava os anos, açoitava os meses, enchia os dias. O pau-de-arara solitário engolia as léguas na direção do sul. levava a bordo dezenas de sonhos que se perderiam entre os arranha-céus frios e indiferentes da grande São Paulo. Sonhos natimortos.
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