sábado, 7 de novembro de 2009

O circo (cont...)

(...) O palhaço era escritinho Bisunga de Celáu, um molequinho serelepe que carreava leite lá pra casa. A mesma parrudice, a mesma voz de taboca rachada, as mesmas presepadas de borrego novo, com igual agilidade corporal. Postos lado a lado, difícil saber quem era quem. E dava saltos mortais incriveis, fazendo a miudagem se estatelar de tanto rir. Na vez das rumbeiras, os marmanjos só faltavam botar abaixo a cerca que isolava o tablado do galinheiro. Ficavam atarantados, babando feito bêbados, espremendo-se aos pés do palco, escoiceando-se, trocando tapas e safanões, mergulhando no ar para agarrar os chutes que as mesmas davam naquela direção com as pernas desnudas. Tinha uma bonitinha, maneirosa, curtinha, apertadinha, faceira, simétrica, que era a copia fiel de Ana Bom-Pisar, uma rameira que mantinha um rendez-vous na rua do matadouro. A segunda parte era um drama intitulado "A louca do jardim", com uma mórbida música de fundo vertida por uma radiola de rotação atrasada. Dizia da história de uma mãe viúva abandonada pelos filhos num asilo de loucos. A protagonista me lembrava Dona Profira com seus longuíssimos cabelos brancos desgrenhados, uma  velha rezadeira que morava sozinha perto do cemitério. Era tudo tão pobre e tão deprimente... Cheguei às lágrimas, de tão chocado.
De repente, pipocou um quiprocó no meio do galinheiro (galinheiro: o mesmo que arquibancada). Ouviu-se perfeitamente um grito feminino e um tapa seco, seguidos de uma frase irada:
        - Seu ousado!
O espetáculo interrompido, as luzes do picadeiro acesas, o "médico" que cuidava da viúva adotada como "mãe", descendo às pressas do palco, o povo abrindo alas, empurra-empurra, tábuas voando, cadeiras pra cima, gritos, assobios, palavrões cabeludos, zoada de luta corporal, e um estampido. Daí a pouco um homem avermelhado passou zunindo pelo meio do picadeiro em polvorosa, buscando a saida principal, perseguido de perto pelo "médico", que também acumulava as funções de bilheteiro e malabarista. Era um marido furioso. Enquanto vociferava entredentes "Eu te mato, cabra rúim! Eu te capo, fio duma égua!", apertava seguidamente o gatilho de uma pistola velha que crefava com secos estalidos. Soube-se depois que Joãozinho Sapo-de-Rabo, um barbeiro folgazão, roubara um beijo da rumbeira bonitinha. Era costume, após as apresentações, as coristas correrem a platéia masculina vendendo fotografias das próprias em poses sensuais, ou "jogando lenços", arrecadando uns trocados daqueles mais apaixonados ou corteses. Paravam na frente do espectador, geralmente de meia idade e com aparência de abastado, ofereciam a foto, e depositavam afetivamente um lenço perfumado, normalmente de cor escarlate, sobre o seu ombro, e, com voz lânguida e olhares cheios de promessas que dificilmente cumpririam (povo de circo é povo coeso), falavam:
            - O moço bonito dá o que quiser...
Vai que, comendo uma água da moléstia, desposando uma matrona barriguda, que nem filhos lhe dera, os olhões avermelhados de genebra varando o corpete da corista, Joãozinho Sapo-de-Rabo entendeu a coisa ao seu modo. Invés de uma nica gorda, agarrou a gostosa de supetão e tacou-lhe um beijo ardente na boca carmínea, dando com ela no chão de areia solta. A cidade inteira glosou o episódio e trocou o nome do homem para O Sapo Beijoqueiro...
(continua...)

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