sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O circo

A notícia se espalhou como rastilho de pólvora pela cidadezinha. Estourando pelos becos e vielas, pretos, brancos, mulatos-sararás, pobres, ricos, remediados, os meninos encheram de alaridos a Praça da Santa Cruz, local onde geralmente as companhias circenses fincavam suas amarras. Dessa vez era um cirquinho de nada, um grupinho mambembe de artistas esfomeados, que nem lotou o caminhão ofertado pela prefeitura de uma cidade vizinha. Um cata nica. Depois de armado, não ocupou nem metade do terreno baldio destinado a tal fim. O mastro principal era só um pouquinho mais alto do que a torre da capelinha erigida pelo beato Antonio Conselheiro e seus seguidores, e que hoje dava nome ao local. Tinha a lona remendada, nem trapezista tinha, e até o palhaço era um toco-de-amarrar-jegue chamado Pingotinha. Mas, que importava? Era um circo! E tinha rumbeiras, mágico, um anãozinho que engolia espadas, um comedor de fogo, até um macaco-saguim ensinado tinha. Era um circo!
Na noite de estréia, trajando minha melhor roupa, lá estava eu trepado no galinheiro. Com os olhos maravilhados, ia vendo desfilar pelo picadeiro mal iluminado, a sucessão de números. Depois das caçadas de badogue e dos babas com bolas de meia, era do que mais gostava. Havia também um cinema que funcionava de oito em oito no mercado da farinha, mas o cinema era uma coisa distante, irreal, intátil, parecia enredo do faz-de-conta. O circo, não. Os artistas eram de carne e osso, estavam ali na minha frente. Poderia tocá-los, se o quisesse. Era verdade que aquele era um cirquinho mixuruca, não chegava aos pés do "Gran Real Circus Amazonas", a última companhia que visitara a cidade. Esse, sim, era um circo enorme, de dois mastros, bicho de todo tipo, com mais de um palhaço, equilibristas fantásticos correndo em arames, trapezistas intrépidos que se aventuravam no voo da morte, belas rumbeiras, orquestra própria, uma frota de caminhões, carros de passeio, os donos a se hospedarem no hotel de dona Belinha, as mulheres no maior luxo, metidas nas sedas e nos balangandãs, cheias de não-me-toques. E trazia uma atração nunca vista antes por nós: o intrigante globo-da-morte. Como podia duas lambretas num negócio apertado daqueles não se chocarem, rodando naquela velocidade? E quando tocavam a abóbada, ficando de cabeça pra baixo, por que os homens não quebravam o pescoço, despencando lá de riba? Nem gostava de olhar, morria de medo, como se fosse eu a cavalgar aquelas máquinas endiabradas.
Esse outro dagora, de tão fraco, nem orquestra tinha. O conjunto formado por um cavaquinho, um violão, uma sanfona e um pandeiro, era composto por músicos dali mesmo, emprestado do cabaré de Purezinha, que distava dois passos, na Rua do Quinze. E o locutor de terno rococó, que já se apresentara como mágico, botando ovos pela boca e fanzendo batidos truques com cartas de baralho, anunciava as parcas atrações do "Grande Circo Europeu" com tamanho estardalhaço, com tão forçada veemência, que até ele por pouco não sucumbia ao riso. Mas a platéia que enchera o local, nem parecia se importar com aquelas deficiências. Tudo era aplaudido. Qualquer coisa era melhor do que ir dormir com as galinhas, já que na nossa cidade, além das festas juninas e dos festejos da padroeira no mês de dezembro, folguedo era boi arisco.
Até o momento, do que eu gostara mesmo, fora das estrepolias do saguim. O diacho do bichinho vestido de gente, com uma cartola barbelada na cabeça inquieta, fazia artes que me deixavam de queixo caido. Correndo sobre um arame esticado acima do picadeiro e atendendo a voz de comando do amestrador que o acompanhava de longe, o danadinho dava cambalhotas, assobiava, batia palmas, cumprimentava o público, fazia caretas, ficava dependurado pelo rabo, e fingia-se de morto de papo pro ar sobre o arame fino. Apelidaram-no logo de Teco do Funileiro, um moleque da cara de macaco, cheio de patacoadas. E o anãozinho engolidor-de-espadas? Onde uma criaturinha daquele tamanitinho escondia tamanho facãozão dentro daquela barriguinha de preá-cutia? Só podia mesmo ser maguinitismo de povo de circo. E se locomovia de forma engraçada, os pézinhos voltados para dentro, o corpinho oscilante, com dificuldades de papagaio empoleirado. A platéia o batizou de Passinho da Boa-Hora, um nanico que esmolava na porta da igreja-matriz...
(continua...)

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