quinta-feira, 5 de novembro de 2009

LAVRA AGÔNICA


Eu já escrevi oito livros (romances, crônicas, contos, uma fábula, poesias, e tenho um livro na ponta da agulha há mais de 3 anos – Ocaso dos Deuses,) mas parece que perdi a verve que municia a criação literária. Desde certo tempo, compor uma história com princípio meio e fim é deveras mui angustiante. Mas vou tentar aglutinar algumas palavras, posto que me arvorei de ser “blogueiro’, e essa prerrogativa pressupõe material léxico, quer dizer, tenho de me expressar através da língua-pátria, a única pela qual poderei me traduzir. Estou no campo, na roça, e um vento à lufar do norte, prenúncio de chuva, persiste em iludir-me que estamos no outono e não na primavera cheia de sol quente, ante-sala do verão cíclico. Uns grilos cricrilam intermitentemente sob as folhas secas de um velho cajueiro florido com flores de um pé-de-maracujá que lhe tomou a copa, usando-o como escada para se mostrar prolífero, por onde sobem cobras e lagartos para o telhado do alpendre da casa que meu pai construiu há mais de 40 anos, aqui nessa roça de outros tempos, hoje quase irreconhecível. Na minha frente, vizinho ao cajueiro, cujos galhos tortos debruçam-se sobre o telhado, tem um pé-de-umbu, quase rasteiro, iniciando sua floração generosa, que redundará em frutos carnosos, bons para degustação in natura, e principalmente para confecção de doces e sucos e umbuzadas. Esse umbuzeiro de mais de 30 anos, suponho, serve de casa e comida para um casal de tiriscos, pássaros pequeninos, insetívoros, bicolores, uns bem-te-vis nanicos (quiçá seja o tirisco a menor ave brasileira), que aqui se instalaram no princípio do inverno, meses atrás. E como são valentes! Defendem seu espaço quais titãs enfurecidos. Outro dia os vi dando uma poeira nuns colibris-tesourões, aves belicosas por excelência, que tencionavam montar seu ninho na copa fechada dessa árvore-símbolo do sertão nordestino. O canto do tirisco é um canto sem encantos, quase o criquilar de um grilo. Eles, os tiriscos e os grilos, mestres da camuflagem, mas onipresentes, embalam minha madorna na rede de caruá que ora me serve de descanso para compor no laptop essa minha tentativa inócua de retomar o complexo ato de criar histórias. Ah, não poderia deixar de citar uma nambu que por cá apareceu, depois de mais de uma década, fato raríssimo, nuns matos que sobraram num cantinho pedregulhento da roça, subvertendo tanta devastação promovida por nós humanos, e da qual certamente pagaremos caros tributos. A nambu, solitário vivente, já cantou uma dezena de vezes, sem eco, até agora, 2 horas da tarde. O seu canto, que ora me soa melancólico, extravagante, posto que a nambu tem a função de acordar os matos com esplêndidos madrigais,e raramente se manifesta depois das sete horas da manhã ou antes das 5 da tarde, me transporta para meu tempo de menino, uma eternidade, quando essa roça, e arredores, era povoada de mataria densa, misteriosa, bichos de todo tipo, gentes no eito, sonhos, esperanças. Esses fantasmas hoje são caros espectros que adormecem no meu peito desinfantil. E pelos quais tenho um carinho especial, um zelo de pai pressuroso...

Um comentário:

  1. Fico feliz de poder ler um texto de Sr Erê, de quem sou um dos maiores fãs lendo pouquíssima coisa!! Seguirei este blog com firmeza... até para aguçar mais meu vocabulário!!! Save Sr ErÊ!! Quando puder da uma olhada foradumaordem.blogspot.com

    Abrç

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