(...) E o cortejo ia aumentando, recrudescendo a gritaria. De todos os lados, como se atraidos por irresistível força, bandos de meninos apareciam, entravam na folia. Uns mais espertos já vinham com as caras marcadas de carvão e óleo de comida, e misturavam-se solertes à turba. Inútil artifício. De início o palhaço contava e anotava o número inicial de "gritadores", termo usado para nominar os componentes da barulhenta comitiva. E assim, vasculhadas todas as ruas, escarafunchados todos os becos, já noite fechada, o palhaço depunha as pernas-de-pau e liberava a molecada, que se tornava íntima do pessoal do circo. Alguns mais desinibidos até faziam uma pontinha nos dramas, para gáudio da população.
Durante a permanência das companhias no lugar, eu deixava de lado todas as coisas, tudo o mais perdia a importância. Ficava fascinado por aquele mundo de fantasias, em que de dia os artistas eram gente comum, comiam, bebiam, brigavam entre si, fediam a suor. Porem, de noite, quando se acendiam as luzes do picadeiro, transmutavam-se em outros seres. Risonhos, destros, bem-falantes, cheios de cores. Donde vinha aquela mágica?
Fazia já umas três semanas desde que o circo chegara, mudando totalmente a rotina do lugar. Toda noite casa cheia, o galinheiro apinhado, as cadeiras lotadas pelas famílias mais abastadas, e pelos familiares, compadres, amigos, agregados e aparentados das autoridades policiais (ônus pago por uma espécie de proteção). E as pessoas a cortejar os artistas, querendo saber detalhes de suas vidas, convidando-os para rega-bofes em suas casas, uma viúva-de-carneiro, uma galinha caipira ao molho-pardo, um tatu na pimenta, tratando-os como seres de outro planeta. Até os mata-cachorros (a classe mais baixa do circo) posavam de gostosos, recebendo atenções que não se dispensaria a uns quaisquer. Seria mais um circo que passava pela cidade, não fosse um fato ocorrido naquela tarde de verão quente. Um formidável pé-de-vento entrou picadeiro a dentro e arrasou tudo. Derrubou o mastro, reduziu a cobertura a trapos, pôs parte do galinheiro ao chão, e esbagaçou as barracas de lona adjacentes, as quais serviam de casa ao pessoal da companhia. Um pandemônio.
Aos gritos, corremos para lá. Foi a maior festa ver o circo desfigurado, os artistas descabelados, inertes, vagando feitos zumbis pelo meio dos destroços. Mas a minha alegria durou pouco tempo. Sentado no palco empoeirado, o palhaço Pingotinha chorava copiosamente, a cara negra, pintada pela metade, toda borrada de tinta. Fora colhido pelo vendaval no momento em que se preparava para sair pela cidade arregimentando a população, à frente da molecada, na sua ronda diária. Tomei um choque. Nunca vira um palhaço chorando. Comovido, aproximei-me devagarinho e fiquei ao lado, solidário, ouvindo-o repetir baixinho:
- Tudo perdido, meu Deus... Tudo perdido...
De repente compreendi a extensão da coisa. Aquilo era a casa deles. Ali eles moravam, comiam, amavam, trabahavam, ganhavam o pão-de-cada-dia. Em torno, nas barracas despeladas, panelas com comidas jaziam destampadas como vísceras expostas. Roupas íntimas sujas de areia esparramavam-se aqui e ali ao lado de colchões encardidos e de camas velhas. E a meninada pisando por cima de tudo, correndo, uivando, remexendo as coisas, numa azáfama venal. Comparei-os a um bando de peles-vermelhas a pilhar e a saquear colonos, como nos filmes de faroeste. Senti vergonha. Mas, a mesma disposição que tínhamos para a vilania, também tínhamos para o altruísmo.
Passado o momento de torpor, o pessoal do circo arregaçou as mangas. Capitaneando um batalhão de meninos ruidosos, o palhaço Pingotinha coordenou o resgate da velha lona, cujos retalhos foram encontrados até fora da cidade. Durou a jornada, uma tarde e um dia inteiros. A cada pedaço reavido, entrávamos afobados no picadeiro, como se portássemos valioso troféu. E a nossa colaboração foi além, ajudando a armar e a costurar a enorme coberta, quase de todo imprestável, que se assemelhava a um roto e descomunal quebra-cabeças. A operação levou um bom tempo, durante o qual me senti fazendo parte do circo. Fugia de casa cedinho, ignorava a escola, passava o dia todo no circo assessorando a troupe. No dia em que a cobertura foi alçada, fizemos uma tremenda festa. Nossa maior satisfação foi ter notado no semblante do palhaço Pingotinha, a volta da alegria. Como recompensa pela nossa colaboração, ganhamos entrada franca pelo resto da temporada.
Fazia parte da troupe uma menina entrando na adolescência, filha dos donos do circo. De cabelos oxigenados, magra, espigadona mas harmoniosa, com ares de mocinha e pose de vedete, era a alma da companhia. Quando pisava o palco, colorida, de mini-saia e longas botinas, dublando a cantora Vanderléa, magnetizava a platéia. Não sei quando nem como começou a coisa, mas de repente estava caidinho por ela. Eu ainda nem completara meus treze anos de idade, nem sabia direito o que era namoro, vivia metido com badogues e bolas de gude. O fato é que deixei de "gritar palhaço", abdiquei dos suspensórios e das calças-curtas, e me vi envergando roupas de gente grande, a meia-cabeleira recendendo a perfume de óleo glostora. Procurava sempre gravitar em torno da pequena estrela, o coração sambando no peito, impondo inflexões adultas na voz infirme, que ela parecia nem dar bola a essa performance.
Talvez por havermos privado da mesma intimidade por alguns dias, ela às vezes punha uns promitentes olhos esverdeados em mim. Mas era uma coisa solta, cortava os assuntos pelo meio, tocava a falar aleatoriamente, isso assim-assim, aquilo assim-assado, fazendo-me sentir como um peixe fora dágua. Até que uma noite me aprontou uma surpresa. Por estar sempre por ali, um dia fui convidado a participar de um drama, junto com outros meninos, a renda do espetáculo inédito meada em cinquenta por cento em favor de um ginásio que se construía no lugar. Com o repertório escasseando, o circo usava daquele expediente para fugir da baixa frequência. Após uma tarde de ensaios, com o circo abarrotado de gente, levamos ao palco uma adaptação insípida de um conto dos irmãos Grimm, A Bela Adormecida. Não me deixaram ser o herói, por ser um pouquinho menor do que a menina, que fazia o papel principal. Meteram-me uma roupa velha no corpo magro, abriram rugas em minha cara imberbe, e transformaram-me num ancião que deveria mostrar ao Prìncipe o castelo onde a Princesa dormia à espera de ser acordada com um beijo. Fiquei arrasado. Depois da apresentação, em que os companheiros zombaram da minha triste figura, contendo o pranto a muito custo, fui me esconder do lado de fora do picadeiro, perto das barracas, à espera de ter a maquiagem removida, sentindo-me ridículo, odiando a infeliz idéia de querer ser de circo.
Então, ainda trajada de princesa, a garota apareceu-me. E de súbito, inopinadamente, me espremeu de encontro à lona da barraca, e me sapecou um bejo na boca, esfregando a língua molhada em meus dentes. Depois saiu correndo e rindo da minha reação. Apesar de feliz, não consegui reprimir uma sensação invasiva, engolindo com certo receio a saliva quente que ela deixara depositada na minha boca. Então era assim que os namorados agiam!... E quem não gostava de escovar os dentes, como meus companheiros de caçadas, que tratavam as cáries e as dores-de-dente com o sumo ácido e anestésico de uma planta chamada cacetinho-do-cão, que desintegrava um dente em questão de segundos, como era que ficava? Decidi dai pra frente caprichar mais nas escovadelas, e não apenas fingir que escovava e engolia o refrescante dentifricio. Passei a noite preocupado com a minha higiene bucal.
Os companheiros de aventuras estranhavam o comportamento que passei a manifestar, depois daquela noite. Fugia das brincadeiras, deixei de caçar passarinhos, ficava pelos cantos, arredio, divagante, com ares de homenzinho. O fato era que pegara paixão forte. Uma paixão danada. E fazia castelos de sonhos, compondo com a menina, uma dupla de artistas. Ora éramos mágico e assistente, ora dois destemidos trapezistas, ora uma dupla de cantores, outro hora dois valentes domadores, quebrando a castanha de leões, tigres, e ferozes onças pintadas. Só nunca conseguimos ser palhaços. Não havia jeito de nos imaginarmos com aquelas roupas folgadonas e bolinhas vermelhas no nariz, fazendo patacoadas. Mas até pelo globo-da-morte nos aventuramos, eu numa lambreta, ela noutra, desafiando o perigo. Mas não naquele cirquinho. Num circo rico, famoso, enorme, os mastros raspando o céu.
Aprendi a beijar. Tanto ela me ensinava, que agora me saía bem até com chicletes na boca. Os encontros davam-se sempre às escondidas, nas cercanias do circo, geralmente pelo anoitecer, ou durante os espetáculos. Eu pouco ligava pelo que se desenrolava no picadeiro. Ficava vagando sem esquentar lugar, esperando o momento em que ela desaparecesse por trás das cortinas, depois do seu número. Escapulia discretamente, ia encontrá-la me esperando ao lado da barraca dos pais. Naquele dia o palhaço Pingotinha não saíra pelas ruas, chamando o povo. Era o sinal mais forte de que não haveria espetáculo. A trovoada provinda do norte, com a ira de todos os deuses, fustigara a região. E eu, que tanto apreciava aqueles fenômenos, dessa vez quase amaldiçoei a chuva. Que idéia aquela de São Pedro abrir as torneiras justamente quando havia um circo na cidade! A cada minuto que passava, olhava pro céu, vasculhando o horizonte em busca de uma abertura nas nuvens, mas o tempão engoliu a tarde e as estrelas não vieram. Resoluto, atufei os bolsos de chicletes-bola e saí pela noite raivosa debaixo dágua. Aventura temerária, já que tinha um medo pavoroso de topar com uma visagem. Mas estava enrabichado e as mulas-sem-cabeça e os lobisomens agora não passavam de pálidos espectros.
Na entrada do circo quase às escuras, fiquei de prosa com um mata-cachorro, sondando a área. A maioria dos artistas estava pelo mundo. Uns atendendo convite para jantar; outros, para cair na pândega pelos botecos ou cabarés. Fiquei ali como quem nao queria nada, pisando, jogando conversa fora, até que criei coragem e perguntei pela menina. Fui informado de que ela se encontrava recolhida. O papo foi amiudando, amiudando, o desassunto teve lugar, e o lacônismo empurrou-me para o interior do circo cheio de pingueiras e envolto na penumbra. Pronto, estava ali. E agora? Geralmente era ela quem conduzia o embeleco, marcava os encontros, sempre dava um jeito de ficarmos à sós. Estava quase arrependido de ter tomado aquela irrefletida atitude, mas o meu peito juvenil queimava de ansiedade e eu fui atravessando o picadeiro em direção aos fundos do circo sem sentir. Quando me dei conta estava diante da barraca. De seu interior iluminado, um rádio de pilhas matraqueava a Voz do Brasil. Devo ter feito algum barulho, pois a silheuta da garota se recortou através da lona, caminhando na direção da porta cortinada.
- Oi, é você...
Não havia surpresa em sua voz, apenas um misto de ironia e divertimento. Era eu sim, mas o que devia falar? Enfiei as mãos nos bolsos da calça topeka e fiquei parado, mudo, a cara de babaquara, esperando que ela agisse, como das outras vezes.
- Entre pra cá. Venha enxugar os cabelos...
Eu? Entrar no quarto de uma mulher? Nem pensar! Por que ela não saía e não me carregava pros fundos da barraca? Não arredei do lugar. Ao me ver assim parecedo uma estátua, ela me puxou por um braço, ordenando.
- Venha!...
O jeito foi obedecê-la, esquadrinhando os quatro cantos do lugar, em busca dos pais. Suspirei aliviado ao constatar que ela estava sozinha. Recebi uma toalha enxombrada e passei-a nos cabelos ensopados, ante o ar divertido da garota, que começou a falar desenvoltamente, abafando a voz do rádio com descargas estáticas, refletindo o humor dos céus. Tempo escorrendo, ela foi diminuindo a eloquência e estreitando a distância entre a gente. Com pouco, estávamos colados, num embolo danado. De repente, os familiares apareceram, rindo e falando alto. Aflito, com medo de ser capado pelo pai, minha primeira reaçao foi sair em disparada. Ao notar o meu dessassossego, ela me segurou pela mão e falou despreocupadamente:
- Nada, besta, eles já sabem...
E terminei por dividir com ela, um pedaço do bolo de aipim que os pais trouxeram como sobras do jantar de que haviam participado na vizinhança.
Eu queria deter o tempo. Fazer com que tudo parasse e aquele circo permanecesse ali pelo resto da vida. Mas o tempo foi correndo, a bilheteria mixando, os artistas se desmotivando. E um dia, esgotado o minguado repertório, cansada a população das manjadas repetições, a lona amanheceu arriada. Encostou um caminhão, encheu-se a carroçaria de breguessos, e quase como se fugindo envergonhado, o circo lá se foi, levando com ele aquela pequena estrela. Eu cá fiquei, com um enorme vazio na alma...
- Tudo perdido, meu Deus... Tudo perdido...
De repente compreendi a extensão da coisa. Aquilo era a casa deles. Ali eles moravam, comiam, amavam, trabahavam, ganhavam o pão-de-cada-dia. Em torno, nas barracas despeladas, panelas com comidas jaziam destampadas como vísceras expostas. Roupas íntimas sujas de areia esparramavam-se aqui e ali ao lado de colchões encardidos e de camas velhas. E a meninada pisando por cima de tudo, correndo, uivando, remexendo as coisas, numa azáfama venal. Comparei-os a um bando de peles-vermelhas a pilhar e a saquear colonos, como nos filmes de faroeste. Senti vergonha. Mas, a mesma disposição que tínhamos para a vilania, também tínhamos para o altruísmo.
Passado o momento de torpor, o pessoal do circo arregaçou as mangas. Capitaneando um batalhão de meninos ruidosos, o palhaço Pingotinha coordenou o resgate da velha lona, cujos retalhos foram encontrados até fora da cidade. Durou a jornada, uma tarde e um dia inteiros. A cada pedaço reavido, entrávamos afobados no picadeiro, como se portássemos valioso troféu. E a nossa colaboração foi além, ajudando a armar e a costurar a enorme coberta, quase de todo imprestável, que se assemelhava a um roto e descomunal quebra-cabeças. A operação levou um bom tempo, durante o qual me senti fazendo parte do circo. Fugia de casa cedinho, ignorava a escola, passava o dia todo no circo assessorando a troupe. No dia em que a cobertura foi alçada, fizemos uma tremenda festa. Nossa maior satisfação foi ter notado no semblante do palhaço Pingotinha, a volta da alegria. Como recompensa pela nossa colaboração, ganhamos entrada franca pelo resto da temporada.
Fazia parte da troupe uma menina entrando na adolescência, filha dos donos do circo. De cabelos oxigenados, magra, espigadona mas harmoniosa, com ares de mocinha e pose de vedete, era a alma da companhia. Quando pisava o palco, colorida, de mini-saia e longas botinas, dublando a cantora Vanderléa, magnetizava a platéia. Não sei quando nem como começou a coisa, mas de repente estava caidinho por ela. Eu ainda nem completara meus treze anos de idade, nem sabia direito o que era namoro, vivia metido com badogues e bolas de gude. O fato é que deixei de "gritar palhaço", abdiquei dos suspensórios e das calças-curtas, e me vi envergando roupas de gente grande, a meia-cabeleira recendendo a perfume de óleo glostora. Procurava sempre gravitar em torno da pequena estrela, o coração sambando no peito, impondo inflexões adultas na voz infirme, que ela parecia nem dar bola a essa performance.
Talvez por havermos privado da mesma intimidade por alguns dias, ela às vezes punha uns promitentes olhos esverdeados em mim. Mas era uma coisa solta, cortava os assuntos pelo meio, tocava a falar aleatoriamente, isso assim-assim, aquilo assim-assado, fazendo-me sentir como um peixe fora dágua. Até que uma noite me aprontou uma surpresa. Por estar sempre por ali, um dia fui convidado a participar de um drama, junto com outros meninos, a renda do espetáculo inédito meada em cinquenta por cento em favor de um ginásio que se construía no lugar. Com o repertório escasseando, o circo usava daquele expediente para fugir da baixa frequência. Após uma tarde de ensaios, com o circo abarrotado de gente, levamos ao palco uma adaptação insípida de um conto dos irmãos Grimm, A Bela Adormecida. Não me deixaram ser o herói, por ser um pouquinho menor do que a menina, que fazia o papel principal. Meteram-me uma roupa velha no corpo magro, abriram rugas em minha cara imberbe, e transformaram-me num ancião que deveria mostrar ao Prìncipe o castelo onde a Princesa dormia à espera de ser acordada com um beijo. Fiquei arrasado. Depois da apresentação, em que os companheiros zombaram da minha triste figura, contendo o pranto a muito custo, fui me esconder do lado de fora do picadeiro, perto das barracas, à espera de ter a maquiagem removida, sentindo-me ridículo, odiando a infeliz idéia de querer ser de circo.
Então, ainda trajada de princesa, a garota apareceu-me. E de súbito, inopinadamente, me espremeu de encontro à lona da barraca, e me sapecou um bejo na boca, esfregando a língua molhada em meus dentes. Depois saiu correndo e rindo da minha reação. Apesar de feliz, não consegui reprimir uma sensação invasiva, engolindo com certo receio a saliva quente que ela deixara depositada na minha boca. Então era assim que os namorados agiam!... E quem não gostava de escovar os dentes, como meus companheiros de caçadas, que tratavam as cáries e as dores-de-dente com o sumo ácido e anestésico de uma planta chamada cacetinho-do-cão, que desintegrava um dente em questão de segundos, como era que ficava? Decidi dai pra frente caprichar mais nas escovadelas, e não apenas fingir que escovava e engolia o refrescante dentifricio. Passei a noite preocupado com a minha higiene bucal.
Os companheiros de aventuras estranhavam o comportamento que passei a manifestar, depois daquela noite. Fugia das brincadeiras, deixei de caçar passarinhos, ficava pelos cantos, arredio, divagante, com ares de homenzinho. O fato era que pegara paixão forte. Uma paixão danada. E fazia castelos de sonhos, compondo com a menina, uma dupla de artistas. Ora éramos mágico e assistente, ora dois destemidos trapezistas, ora uma dupla de cantores, outro hora dois valentes domadores, quebrando a castanha de leões, tigres, e ferozes onças pintadas. Só nunca conseguimos ser palhaços. Não havia jeito de nos imaginarmos com aquelas roupas folgadonas e bolinhas vermelhas no nariz, fazendo patacoadas. Mas até pelo globo-da-morte nos aventuramos, eu numa lambreta, ela noutra, desafiando o perigo. Mas não naquele cirquinho. Num circo rico, famoso, enorme, os mastros raspando o céu.
Aprendi a beijar. Tanto ela me ensinava, que agora me saía bem até com chicletes na boca. Os encontros davam-se sempre às escondidas, nas cercanias do circo, geralmente pelo anoitecer, ou durante os espetáculos. Eu pouco ligava pelo que se desenrolava no picadeiro. Ficava vagando sem esquentar lugar, esperando o momento em que ela desaparecesse por trás das cortinas, depois do seu número. Escapulia discretamente, ia encontrá-la me esperando ao lado da barraca dos pais. Naquele dia o palhaço Pingotinha não saíra pelas ruas, chamando o povo. Era o sinal mais forte de que não haveria espetáculo. A trovoada provinda do norte, com a ira de todos os deuses, fustigara a região. E eu, que tanto apreciava aqueles fenômenos, dessa vez quase amaldiçoei a chuva. Que idéia aquela de São Pedro abrir as torneiras justamente quando havia um circo na cidade! A cada minuto que passava, olhava pro céu, vasculhando o horizonte em busca de uma abertura nas nuvens, mas o tempão engoliu a tarde e as estrelas não vieram. Resoluto, atufei os bolsos de chicletes-bola e saí pela noite raivosa debaixo dágua. Aventura temerária, já que tinha um medo pavoroso de topar com uma visagem. Mas estava enrabichado e as mulas-sem-cabeça e os lobisomens agora não passavam de pálidos espectros.
Na entrada do circo quase às escuras, fiquei de prosa com um mata-cachorro, sondando a área. A maioria dos artistas estava pelo mundo. Uns atendendo convite para jantar; outros, para cair na pândega pelos botecos ou cabarés. Fiquei ali como quem nao queria nada, pisando, jogando conversa fora, até que criei coragem e perguntei pela menina. Fui informado de que ela se encontrava recolhida. O papo foi amiudando, amiudando, o desassunto teve lugar, e o lacônismo empurrou-me para o interior do circo cheio de pingueiras e envolto na penumbra. Pronto, estava ali. E agora? Geralmente era ela quem conduzia o embeleco, marcava os encontros, sempre dava um jeito de ficarmos à sós. Estava quase arrependido de ter tomado aquela irrefletida atitude, mas o meu peito juvenil queimava de ansiedade e eu fui atravessando o picadeiro em direção aos fundos do circo sem sentir. Quando me dei conta estava diante da barraca. De seu interior iluminado, um rádio de pilhas matraqueava a Voz do Brasil. Devo ter feito algum barulho, pois a silheuta da garota se recortou através da lona, caminhando na direção da porta cortinada.
- Oi, é você...
Não havia surpresa em sua voz, apenas um misto de ironia e divertimento. Era eu sim, mas o que devia falar? Enfiei as mãos nos bolsos da calça topeka e fiquei parado, mudo, a cara de babaquara, esperando que ela agisse, como das outras vezes.
- Entre pra cá. Venha enxugar os cabelos...
Eu? Entrar no quarto de uma mulher? Nem pensar! Por que ela não saía e não me carregava pros fundos da barraca? Não arredei do lugar. Ao me ver assim parecedo uma estátua, ela me puxou por um braço, ordenando.
- Venha!...
O jeito foi obedecê-la, esquadrinhando os quatro cantos do lugar, em busca dos pais. Suspirei aliviado ao constatar que ela estava sozinha. Recebi uma toalha enxombrada e passei-a nos cabelos ensopados, ante o ar divertido da garota, que começou a falar desenvoltamente, abafando a voz do rádio com descargas estáticas, refletindo o humor dos céus. Tempo escorrendo, ela foi diminuindo a eloquência e estreitando a distância entre a gente. Com pouco, estávamos colados, num embolo danado. De repente, os familiares apareceram, rindo e falando alto. Aflito, com medo de ser capado pelo pai, minha primeira reaçao foi sair em disparada. Ao notar o meu dessassossego, ela me segurou pela mão e falou despreocupadamente:
- Nada, besta, eles já sabem...
E terminei por dividir com ela, um pedaço do bolo de aipim que os pais trouxeram como sobras do jantar de que haviam participado na vizinhança.
Eu queria deter o tempo. Fazer com que tudo parasse e aquele circo permanecesse ali pelo resto da vida. Mas o tempo foi correndo, a bilheteria mixando, os artistas se desmotivando. E um dia, esgotado o minguado repertório, cansada a população das manjadas repetições, a lona amanheceu arriada. Encostou um caminhão, encheu-se a carroçaria de breguessos, e quase como se fugindo envergonhado, o circo lá se foi, levando com ele aquela pequena estrela. Eu cá fiquei, com um enorme vazio na alma...
(Próxima postagem: O malandro que virou Jegue ou O polonês tartamudo e a dama papa-donzelo. (?)
Parabéns pelo blog.
ResponderExcluirDesejo sucesso e serei um dos seus seguidores.
Espero muitos "CAUSOS" e histórias para me divertir e comentar.
Um abraço do seu irmão ... Marcelo.
Obs: Gostei muito da história do circo.