quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O Malandro Que Virou Jegue (cont)


Tudo começou como uma brincadeira para afugentar o tédio. O principal jardim da cidade fora todo reformado, num pomposo empreendimento urbanístico. O prefeito Juca Ferreira fizera vir de um horto florestal de Salvador, dezenas de mudas de frondosas árvores, além de uma espécie de grama japonesa, que foram plantadas com o maior cuidado pelo paisagista Dudu Pedreiro. Dois funcionários da prefeitura, Jerome Bugaju e Tonho Baga, paus-para-toda-obra, ficaram incumbidos de vigiar diuturnamente os valiosos vegetais. Zelosos do ofício, esmeravam-se por levar a bom termo a honrosa tarefa, começando por capturar e prender no curral da matança, todos os animais herbívoros encontrados perambulando pela cidade e arredores. Logo o cercado de macambiras onde era efetuado o abate de bovinos se encheu de jumentos, principal meio de transporte da população. Ao final de uma semana, foi contabilizado a apreensão de 552 jericos, quase 1 per capita, que foram devolvidos aos respectivos donos com a advertência de que, havendo reincidência, os asnos seriam exportados para o Japão e a Coréia, onde viriam a ser transformados em jabá, como era do credo comum.
Primeira etapa cumprida, violeiro nas horas vagas e ranheta que nem marimbondo quando admoestado, Jerome Bugaju debulhava com prazer um desafio para uma só voz na sua viola de 20 cordas. Tonho Baga, que lhe era subordinado, matava o tempo dormitando ou fumando tocos de cigarros apanhados ao léu. Tudo na mais santa paz interiorana. Foi aí que o malandro Jerson entrou em cena com o propósito de lhes dar uma canseira. Naquele tempo, a energia do lugar provinha unicamente de um gerador cansado e o seu fornecimento iniciava-se com as ave-marias e cessava lá pelas 22 horas. Depois, as ruas ficavam entregues aos ladrões de galinha, amantes mais ousados, seresteiros, mulas-sem-cabeça e lobisomens. Não fosse por uma ou outra canção apaixonada ao som de violões e cavaquinhos, dir-se-ia que era uma cidade deserta. Os notívagos faziam de tudo pra não se deixarem ver.
Lá pela meia-noite de uma madrugada calorenta, estavam os dois vigias a dormitar no coreto, principal posto de observação. De repente, da esquina da Santa Cruz, uma "sirene" quebrou o silêncio sepulcral que vigorava na praça.

     "OOOOOONNNN!...IS-OONN!...IS-OONN!...IS-OONN!...IISS!...IISS!...IISS!...

Um Jegue!, marcando as horas! Os dois vigias ergueram-se às pressas. Teriam ouvido bem? Fora um jumento badalando a meia-noite? Espantados, olhavam um para o outro, alumiados por um candeeiro, quando outro zurro papocou de lá pra cá. Dessa vez, mais perto, do lado da matriz, que reinava imponente sobre a praça trevosa.

    "OOOOONNNN!...IS-OONN!...IS-OONN!...IS-OONN!...IISS!...IISS!...IISS!..."

Era um jumento mesmo! E o fio da peste tava comendo a grama dos canteiros da igreja do padre Galvão! Correram para lá. Bugaju, com a viola nas costas, metida num saco, falou, cuspindo brasa:
    - Vamo pegá este condenado,Tonho. Vá por ali queu vou por cá! - e apartaram-se.
Descreveram um círculo e fecharam em leque, bem onde o pastor das bestas deveria estar. Tudo limpo, nem sinal do excomungado. Como prova de que não houvera equívoco auditivo, o violeiro meteu as alpercatas de sola numa ruma de estrume, ainda quente daquela hora.
     - Êta disgraaçaa! Me atolei aqui! - praguejou.
O companheiro abafou um riso e falou:
     - Vamo dar um corte no beco de Zilinho, seu Jerome. O danado só poder ter escapulido por ali.
E entraram numa rua apertada, à toda velocidade. Avançaram alguns metros, saindo num descampado onde uma capelinha terminada em cruz delineava-se à luz das estrelas, quando outro zurro estalou às suas costas. Brecaram a carreira.
      - O fio da mulesta parece que tá no beco de Pidrito! Vamo vortar, Tonho!
E deram meia-volta, por cima do rastro. Tonho Baga, de frágil constituição física, cortado de cigarro, já botava os bofes pela boca; Bugaju, de porte atarracado e nariz de gavião na cara curta enfeitada por um bigodinho grosso, resfolegava de ira. Jeguinho da peste! Jeguinho da peste! Enquanto corria, a viola, apertada no saco, castigava-lhe o lombo.
(continua)...     

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