sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O malandro que virou jegue (cont)

(...) Protegido pela escuridão da madrugada, um vulto furtivo esgueirava-se pelas esquinas, trazendo a tiracolo pesado volume, posto que vinha menso e trocava-o de mão de vez em quando. À altura do coreto, o malandro Jerson desgarrou-se das paredes, cruzou solerte a pista de cascalho, pisou o jardim, arriou a lata de querosene cheia de estrumes, desfolhou umas quatro árvores, espatifou um bocado de grama, entornou parte do conteúdo da lata, ergueu o corpo, olhou pros lados, estufou o peito, e lascou um zurro sensacional, perfeito ao estremo:

      "OOOOONNNN!...IS-OONN!...IS-OONN...IS-OONN!...IISS!...IISS!...IISS!..."

       Depois passou a mão na lata, e, lépido, rindo em surdina, atravessou a praça, postando-se na esquina do Beco do Quinze, donde assuntou o efeito da molecagem. Alvoroço, pisa-pisa, xíngos terríssonos, frases irosas no ar:
       - Óia lá, Tonho, é aquele cão de novo! Avia, vamos abufelar esse surunco! - bradava o violeiro.
       - Hoje num posso, seu Jerome. Tô macumbado... - falou o homenzinho, a voz transida de  medo.
       Não resistira a uns charutos, temerosa mas imperativamente auferidos de um despacho naquela noite, e, carregado, tremelicava a um canto. O violeiro desconjurou-o da sorte e desceu os degraus do coreto bufando, partindo célere, cabresto na mão, em direção ao local donde brotara o paracé. À essa altura, o "jegue" atuava em outra área, zurrando, pisoteando canteiros, avariando mudas, ferindo os ouvidos das casas adormecidas.
      E enquanto durou o suprimento de esterco fedorento do jumento Bacamarte, de sua propriedade, famanaz touro-de-bestas que anteriormente escandalizava dia e noite a nata da soçaite e deleitava a ignara plebe da Natuba, atropelando jegas, burras, éguas e até vacas com seu voraz apetite sexual, antes liberto por aí e agora dividindo humilhante fundo de quintal com porcas e galinhas goguentas, por força de um decreto-lei incôngruo, o malandro Jerson levou às raias da loucura o iracundo violeiro.
      E aquilo se repetiria noite a noite, semana a semana, causando a demissão dos vigias, a exoneração do secretário boa-vida, uma missa de esconjuro no coreto, o gáudio da oposição política, medo aos superticiosos, que eram muitos e ameaçavam abandonar a cidade, e levando o furente prefeito a instituir um prêmio em dinheiro vivo para quem lhe trouxesse a cabeça do famigerado asno.

       Estavam lá, afixados nos postes de madeira, para quem soubesse ler ou a quem interessar pudesse, indignando o sóbrio e acadêmico Cardoso Pena-Grossa, e deliciando o anarquista e livre-pensador Esmeraldo Gordurinha, a inteligentísia da Natuba:

        "PAGA-ÇE, EM MUEDA CORRENTI DO PAIZ,
        A QUÃTIA DE 500 MIU REIZ, PARA QUEM
        CAPITURÁ, VIVO OU MORTO, A PESSOA
        DO JEGUI ENCANTADO. TRATÁ DIRETAMENTI
        COM O CHEFI DO EZECUTIVO.
        Natuba, 13 de maio di l958."

        Desconhecendo que a troca da moeda para o cruzeiro se dera meio século atrás, o secretário namorador, readmitido mediante eficaz e concorrido lobby feminino, redigiu e colou na posteação dezenas de cópias do extravagante cartaz. Meio conto de réis! Uma fortuna possuída apenas pelos políticos e fazendeiros do lugar. Ninguém mais dormiu naquela cidade, inclusive os superticiosos, que mandaram o medo pra cucúia. Homens, meninos, e até mulheres, espingardas e cabrestos a tiracolo, esgaravatavam os quatro cantos da praça até a aurora, fazendo mais estragos no jardim do que o jegue fantasma, que continuava com as suas diabruras.
        Misturado ao povo, o malandro Jerson a princípio achara a situação hilariante, mas logo veio-lhe o estalo: meio conto de réis dava e sobrava para uma passagem no pau-de-arara de Zé Lopes. Mas ainda achou pouco. Quem sabe o prefeito não aumentava a recompensa e lhe permitiria botar uma banca de miudezas lá nas ruas maravilhosas de São Paulo? E caprichou na dilapidação. Apurou o zurro, arrancou plantas a tapa, esbagaçou grama japonesa, furou tonéis, cagou na entrada da Igreja, mijou no batente da Casa Paroquial, derrubou a porta da prefeitura com um coice, quebrou metade dos bancos do jardim, na esperança de ver crescer o valor da recompensa estipulado nos cartazes. E não deu outra. Uma semana depois, a cifra atingia a extraordinária quantia de "HUN  COMTO  DE  REIZ". Aí deu pra ele.
        Uma manhã encabrestou o jumento Bacamarte e na maior cara-de-pau, foi reclamar o prêmio na prefeitura, dando o ouvido a tapa se daquele dia em diante "ninguém mais assuntar um rincho de jegue nesse comércio"!
         - Pode ficar sossegado, viu dotô Juquinha! A culpa é toda desse pai-dégua escroto! Quer um conselho? Mande arrancar logo os quibas deste peste sonso! - falava o malandro, metendo o chute no fumeiro do jumento.
          O fato é que cessaram as incursões fatasmagóricas. E apesar da desconfiança do político, de seus assessores, e do povo todo do lugar, que sabia ser o malandro capaz de qualquer ação para extrair lucros, este embolsou a recompensa e preparou-se para a longa viagem. A viagem de seus sonhos.
           

Um comentário: