sábado, 14 de novembro de 2009

O malandro que virou jegue (cont.)

... Foi morar em São Miguel Paulista, periferia, reduto dos nordestinos migrantes. De começo tudo correu muito bem. Adquiriu uma barraca de camelô e passou a frequentar a Praça da Sé, paraiso da camelotagem e da malandragem. Negociante sagaz, em pouco tempo dobrou o capital investido. A continuar daquela forma, dentro de um ano voltava casado do sertão. Ia indo muito bem, comercializando suas bugiarias com um tino e uma eloquência que enchiam de inveja os vizinhos do ramo. De posse de um megafone, rasgava a goela na frente da banca:
     - Olha o óleo do peixe-elétrico, excelente diurético contra os males da uretra, prisão de ventre, dores lombares e eticetra!... Espinhela caída, rinhada defeituosa, colesterol na barriga? A limonada Milagrosa é o arrelique da sua vida!... Seu marido tá sofrendo de nevralgia, descachimbado, minha senhora, leve pra ele o elixir  do Jeremias, o motor de arranque mais porreta fabricado na Bahia!... Chega meu povão, aproveite a promoção: leve dois pague dois e ganhe um aperto de mão!
     E lascava o bico a arremedar a passarada do sertão, atraindo compradores e curiosos, e açulando ainda mais o olho grande da concorrência. Aí a coisa desandou. Para malandro, malandro e meio. Um dia foi abordado por dois vigaristas disfarçados de fiscais do rapa, trajados a rigor, que foram logo lhe pedindo os documentos. Inadivertidamente entregou-lhes a capanga recheada. Um finge conferir a documentação, escorrega para trás, o outro vai tomando a frente, "fiscalizando" a mercadoria "o que é que você tem aí, meu?", e de repente o primeiro abre no mundo a cem por hora com todas as suas economias e uma certidão de batismo, único documento de que era portador.
     - Ôxe! Ôxe!, que brincadeira da peste é essa? - alarma-se, manjando o embuste.
     E joga o corpo pra diante, desembestando atrás do vagabundo. Logo na saida encontra o pé do outro vigarista na frente e cai de cara numa prateleira de tomates. Em meio às gargalhadas dos concorrentes, que haviam contratado o golpe, levanta-se de pronto, saca de um canivete, e parte como um louco atrás dos ladrões. A perseguição atravessa o camelódromo risonho e continua pelas ruas movimentadas. Ao dobrar de uma esquina perde os bandidos de vista mas continua a correr, canivete empunhado, ansiedade estampada na cara aflita, chamando a atenção dos transeuntes e da polícia, sem notar que os gatunos haviam ficado para trás, escondidos sob uma marquise. Adiante uma viatura policial encosta no meio-fio. Então deu-se o inesperado e ele passou de perseguidor a perseguido. Só tomou ciência quando ouviu a gritaria às suas costas:
      - Pega ladrão! Pega ladrão!
      - ?
      Sem deixar de correr olhou por cima do ombro e viu os dois bandidos na sua traseira apontando-o com o dedo e gritando para os policiais de prontidão no passeio público:
      - Pega! Pega! Segura esse meliante aí, parceiros!
      Quando deu por si, estava agarrado pelo colarinho. Esperneou em vão.
      - Não, não!, eu é que fui roubado por estes vagabundos, seu guarda!
      Difícil provar o argumento. Canivete empunhado, a roupa suja, ares de louco correndo na frente, contra as fardas impecáveis dos "fiscais" da Prefeitura e a desenvoltura desses:
      - O vagabundo estava assaltando uma loja, colega. - falou um.
      Canivete tomado, mãos na cabeça, pernas abertas, revista minuciosa de encontro à viatura.
      - Não, não!, foi eles que me roubaram a capanga, seu polícia!
      - O safado deve ter se descartado do produto do roubo durante a perseguição, colega - falou o outro "fiscal".
      E o policial autoritário, senhor da razão e dos destinos:
      - Cadê os documentos, paraiba?
      - Não, não!, eu sou baiano! O meu batistério tava na capanga que eles me roubaram!
      Em contrapartida, mil e uma carteiras, atestados, recibos, exibidos expontaneamente pelos vigaristas. Estava enrolado no xale-da-doida. Configurados crime e culpa, veio o castigo:
      - Borracha e camburão no meliante, soldado!
      Ordenou o comandante da patrulha a um sobordinado parrudo com cara de fera. Aí os "fiscais" saltaram à frente:
      - Fazemos questão, tenente. O salafrário nos deu a maior canseira. Permite?
      Permissão obtida, cairam de cassetetes e pontapés no lombo do alucinado e desditoso Jerson, ali mesmo na calçada larga apinhada de curiosos.
      (cont.)  
     

Um comentário:

  1. Olá Erenilson tudo bem quero ser seguidor do seu blog mande o convinte para fjss34@hotmail.com

    Fernando

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